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A obra que sempre manteve Belchior por perto.

04/09/2013
Belchior

Belchior

Clube da Esquina, 1972. Secos & molhados, 1973. Loki, 1974. Todos clássicos absolutos da discografia nacional e já abordados por mim neste mesmo espaço. Hoje é dia de falar de mais uma obra prima tupiniquim, indispensável em qualquer coleção. Vamos pular o 1975 e vamos direto para o ano seguinte, 1976. Nesse ano, o cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes lançava seu segundo álbum: Alucinação. Algumas pessoas podem se lembrar desse disco, ou até mesmo do artista Belchior em si, pelas músicas “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, regravadas e imortalizadas por Elis Regina. Mas o disco é bem mais que isso. Muito mais.

Com o tema central focado em um jovem vindo do interior do nordeste para a cidade grande no sudeste, sofrendo na pele o preconceito, a segregação, a humilhação e o descaso, o disco discorre sobre o pessimismo do autor e suas agruras (“Mas não se preocupe meu amigo/Com os horrores que eu lhe digo/Isso é somente uma canção/A vida é realmente diferente/Quer dizer!/Ao vivo é muito pior… “) claro, sempre com muita esperança e confiança naquela geração que passava por grandes apuros com a ditadura que ainda assolava o país, mesmo com a promessa de abertura (andando a passos de formiga) já anunciada.

Apesar de claramente beber na fonte de Bob Dylan, seja pela pegada um tanto folk de algumas canções, ou pelo estilo de sua poética, a brasilidade sonora de Alucinação é evidente. Principalmente a de lá de cima, vindo do nordeste. Em especial de sua terra, o Ceará.

Suas referências vão de Carlos Drummond de Andrade (a quem, anos depois, Belchior voltaria a homenagear, musicando muitas de suas obras e até pintando diversas gravuras suas), passando por Edgar Allan Poe, Manuel Bandeira, os tropicalistas brasileiros (em especial Gil e Caetano), Lennon & McCartney a até mesmo Stanley Kubrick (“Longe o profeta do terror/Que a laranja mecânica anuncia/Amar e mudar as coisas/Me interessa mais”, são alguns versos da faixa título).

O engajamento está definitivamente presente no disco. Belchior encoraja os jovens a buscarem novos desafios, lutar e seguir adiante. O país já passara muitos anos hibernando e a hora da mudança acontecer era “agora”. Apesar das incertezas, medos e injustiças, tínhamos que acordar! “Viver é melhor que sonhar” e “No presente a mente, o corpo é diferente/O passado é uma roupa que não nos serve mais” são algumas frases bradadas pelo então rapaz latino americano sem dinheiro no banco e vindo do interior.

Completo que só, logicamente não poderia faltar um rock “daqueles” nesse disco maravilhoso. Um rock que não fica devendo a nenhum artista brasileiro da década de 70, musicalmente uma das mais ricas de nossa história. Década essa, inclusive, que teve Belchior e suas linhas como referência para a juventude, que outrora admirou Chico, Gil, Caetano e tantos outros, quando estes apareceram e também colocaram a boca no trombone, nos anos 60. Mas voltando ao rock, é com ele que eu termino o post de hoje. Com Belchior e seu lampejo de ventura em Alucinação. Segura a bronca, pra vocês: “Sujeito de Sorte”. Boa ouvida!

QUEM POSTOU

Daniel Branco

Daniel Bruno Moioli, radialista de formação, não sai de casa sem música. Tem sempre uma história para contar sobre um artista, um disco ou um som, mesmo que ninguém tenha perguntado. De 2009 a 2011, esteve à frente do programa Rádio Kanastra, no ar pelo FizTV e, posteriormente, pela MTV.

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