O Artista em Processo: Castello

30/03/2020

O Artista em Processo: Castello

 

 

Serviço. Sintoma. Sermão. Mais do que os títulos da trilogia de álbuns que o compositor carioca Castello Branco lançou entre 2013 e 2019, estas palavras são também provocações. Um sermão pode ser algo bem chato, ou necessário. Um serviço pode ser uma doação, ou um abuso. Um sintoma pode ser uma má notícia, ou apenas o começo da cura. Para Castello, a dupla possibilidade de interpretação das palavras é uma chave para entender as diversas formas que podemos olhar para os acontecimentos do mundo. Em tempos de pandemia, eis aí um bom exercício.  


Neste papo com Eduardo Lemos, em ideias trocadas por áudio de WhatsApp entre dezembro de 2019 e fevereiro deste ano, Castello fala sobre seu processo criativo, o posicionamento político na música e a sua nova obsessão: não ser um obsessivo pela sua própria arte.

 

 

 


É recorrente os artistas comentarem algo como "hoje em dia não basta você fazer a música, você tem que ter um canal no Youtube atualizado, seguidores no Instagram e fazer um clipe pra cada música que você queira trabalhar, entre tantas outras coisas". Das coisas não musicais que um artista independente é obrigado a correr atrás hoje em dia, qual delas você escolheria não fazer, se pudesse?


Castello: Eu sinto que tem vários caminhos e vários jeitos de você enxergar isso tudo. Se a gente ficar fazendo análise, é claro que a música, hoje em dia, não é uma coisa mais tão importante quanto a figura do artista, as pessoas tem consumido muito a imagem daquela pessoa, o que ela faz, o que ela pensa, e não propriamente  a música. Mas acho que isso é um momento que estamos vivendo. Não vai ser sempre assim. 


O mercado sempre cobrou coisas diferentes dos artistas. Não vejo isso como uma reclamação, tipo "ai, já não basta só fazer música...". Acho que tá todo mundo junto e todo mundo consumindo uma coisa, e obviamente, se você quer entrar no circuito, você tem que dar às pessoas aquilo que elas querem ter. Pessoalmente, eu não gosto e não concordo. Mas é meu gosto pessoal. Eu preciso separá-lo do que diz o mercado e a sociedade. 


Um artista, quando ele produz a arte porque ele sente que ele deve fazer, ele não está se importando tanto com essas coisas. Ele vai simplesmente fazendo, jogando, circulando. 


A maioria das letras de "Sermão" é de discursos bastante diretos, como se você falasse ao ouvinte “senta aí e presta atenção, que eu tenho umas coisas pra falar”. Nesse sentido, são, de alguma forma, sermões. A capa também reforça essa ideia. Como você explicaria o nome do disco e a foto da capa?


Essa trilogia é bem provocativa, né? É uma trilogia de tempos presentes, ou seja, eu precisei viver o ano pra conceber o capítulo. Eu vivia o ano, tentava entender o momento que estávamos passando e batizar o capítulo. Todas as três palavras - serviço, sintoma e sermão - tem um lado positivo e um lado negativo, e eu acho que esse é o grande lance dessas palavras. "Serviço" pode ser uma coisa ligada à escravidão, mas também ao ato de servir ao próximo. "Sintoma" pode ser uma doença mas pode ser também algo que você não sabe o que é, e vai precisar de coragem para olhar pra dentro e descobrir. E o "Sermão" também: ela tá ligada ao discurso, as pregações e aos palanques, em que as pessoas falam sem fundamento, e também tem a questão do sermão enquanto passagem de sabedoria, enquanto viver aquilo que está sendo dito, com lealdade. Essas três palavras tem esses dois lados e estão num universo muito alquimista. Olhando a linha tênue que separam esses sentidos, você pode entender a linha tênue das coisas. O lado bom e o lado ruim. E isso é maravilhoso. 


Das três, eu acho que "Sermão" é o disco mais provocativo de todos. A gente tá vivendo um ano de sermão, né? Você entra nas redes sociais e tá todo mundo pregando a sua ideia… mas ninguém vive aquilo ali, ninguém entende de fato aquele sermão que está passando pro outro. Tanto na parte política quanto na parte religiosa ou espiritual. E a capa é a provocação em pessoa: "o que é que a gente aprendeu, o que é que a gente está estudando? isso tudo te limita ou te liberta?". E o vazio do quadro é muito importante. O vazio - o silêncio - é onde eu busco as coisas.  

 

 

 

 

Teu primeiro disco é de 2013, Você levou 4 anos até o segundo, e a diferença de tempo entre ele e o terceiro e o quarto é de um ano. Falando em termos de atividade e produção, o que tem feito você lançar discos com mais rapidez?


Eu tô na música e na arte não por uma escolha, mas porque eu sou assim. Eu produzo assim. Eu vivo assim. Nesse ponto específico, não é um privilégio, porque isso me maltrata, isso me pesa e me machuca num nível que eu não consigo nem mensurar ou explicar. Não existe aquela coisa de "ah, que legal, ele é artista". Não. Eu sinto que eu devo fazer arte mais do que eu quero fazer arte. Às vezes consigo casar o que eu quero com o que eu devo fazer. 


Eu não gostaria de produzir coisas numa velocidade onde nem se entendeu direito o que foi feito antes (nem por mim, nem pelas pessoas) e já tenha que fazer outra. Mas é assim que a gente tem consumidos as coisas hoje em dia, desde a alimentação até a cultura. Aí, me esforço pra produzir as coisas num tempo não só meu, mas dos outros. 

 

Você se lembra de quando compôs sua primeira canção?

 

Eu lembro. Ela se chama "Anu". É uma canção instrumental, muito simples. Eu toquei tantas vezes isso… Eu aprendi a tocar violão com ela. "Anu" foi a primeira coisa que eu toquei no violão, eu ficava repetindo as notas: Mi Menor, Fá com Sustenido e Sol, tocando as cordas soltas na mão esquerda, brincando. Eu tenho uma paixão grande por ela.

 

 

 



Em termos práticos, como é seu processo de criação? Você tem algum ritual que te ajuda a criar? Separa momentos do dia pra isso, ou ela acontece no fluxo natural da rotina?


Eu não tenho um ritual, mas eu tenho momentos do dia em que eu tenho mais facilidade de compor. A madrugada é muito interessante, ou o início da tarde. Normalmente, eu preciso estar com uma sensação de querer dizer alguma coisa e estar em paz comigo.

 

Recentemente se falou muito sobre a falta de engajamento político de artistas super populares. Como você enxerga a relação entre ativismo político e arte? Em momentos preocupantes como este que vivemos em 2020, você acha que o artista precisa ter um posicionamento mais claro? 


Quem sou eu pra dizer o que alguém precisa ou não sentir. Mas o que eu sinto é que existem vários tipos de motivação para com a arte. E existe a diferença entre entretenimento e acontecimento. Se você tá no campo do entretenimento, acho difícil que alguma voz ali fale algo que precisa ser dito. No entretenimento, nada "precisa", ou você precisa, na verdade, de nada. A motivação do acontecimento, por outro lado, tá no dever. A voz do acontecimento, ela sim vai ter a necessidade de dizer. Não dá pra você esperar que um peixe voe. Se você esperar isso, só vai gastar energia falando e argumentando - fora que há uma vaidade nisso, em apontar "olha como aquele peixe deveria voar" ou "olha como eu sou superior e sei o que o outro deveria fazer". É muito mais importante a gente olhar pra gente do que para o outro. Até porque, de fato, peixe não voa - peixe nada. 


Muitas vezes, referem-se à sua música como 'curativa', ou a interpretam como canções a favor do diálogo e da aproximação entre as pessoas. Já chegou a você histórias de como a tua música ajudou as pessoas?


Sim. Eu sinto que boa parte disso vem do fato de eu fazer essas músicas pra mim. Quando eu digo "preciso amar de menos, de menos a mim e mais atento" (trecho de "CrerSendo"), eu estou falando comigo mesmo, pra me acalmar e segurar a minha onda. É tão honesta a motivação, que a música acaba agindo neste lugar. Não tem muito como a gente dizer "é de cura, não é de cura", são as pessoas que tem de dizer isso. E se elas dizem, eu me sinto honrado de servir a elas - aliás, "servir" é doar oportunidades, e eu acho que faço muito isso, eu doo minhas oportunidades pras pessoas. 

 

 

 

 

É preciso ser meio obsessivo pela sua própria arte pra que a coisa aconteça de verdade?


Essa pergunta é muito boa. Eu acho que no geral, a resposta é sim. Eu sou muito obsessivo com a minha arte. Essa trilogia é muito obsessiva. Eu não negociei com ninguém o que eu queria fazer, e eu fiz. E acho que isso limita um pouco o campo dessa produção. Eu quero ampliar esse campo, e pra isso eu preciso deixar essa obsessão um pouco de lado. Acho que tem que haver uma negociação com as pessoas que estão te ajudando a produzir e colocar aquilo no mundo. Ninguém faz as coisas sozinho. O ponto final é o resultado de um caminho muito grande. Você compõe a música, mas depois - os produtores, o empresário, as musicistas, os músicos - todo mundo tá fazendo parte e influenciando. Então, você ser muito obsessivo com isso faz com que você bloqueie a divisão, a partilha. É um desafio que eu estou vivendo este ano. Estou aprendendo isso nesse momento. 

 


Você consegue sondar seu inconsciente e me dizer por que você faz música?


É muita profunda essa pergunta. Primeiro: o que a gente faz não é o que a gente é. A gente faz muitas coisas e às vezes toma certas decisões por cálculos ou por traumas, faz coisas que não deveria fazer. A gente é também aquilo que a gente faz, mas não somos isso sempre. O que a gente faz se transforma a todo momento.


A música tem uma capacidade de união muito grande. Talvez seja a linguagem mais universal de todas: o som. Isso me fascina. E explorar essa linguagem é uma selva muito grande. Eu sou uma pessoa que entrou nessa selva e acha tudo maravilhoso. Que tem vontade de explorar e de descobrir todos os sons. Dentro da música, eu tô em muitos lugares: eu passei pela MPB, pop, música de cura, acontecimento. Tudo é necessário estar, explorar e aprender. É um universo muito grande e eu sou apaixonado por ele. Pra me comunicar, eu poderia escrever, pintar, dar palestra. Mas a música é mais do que uma ferramenta de comunicação: ela é a mãe. 

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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