ALLEN ALENCAR

24/04/2020

Em novo EP, Allen Alencar faz da poesia, canção, e da solidão, criação

 

 

"Mas aí veio a pandemia e…"

 

Como raramente acontece na história, o mundo agora tem uma frase em comum. Em qualquer lugar do planeta, todas as pessoas estavam indo para algum lugar, planejando fazer alguma coisa, "mas aí veio a pandemia e...". 

 

Para os músicos, o COVID-19 gerou um paradoxo: ao mesmo tempo que estão impedidos de praticar a performance ao vivo (que não apenas é, de alguma maneira, "o grande momento" para o artista da música, como também sua maior fonte de renda), eles agora experimentam uma calma ou um silêncio inéditos - duas condições que, teoricamente, são  favoráveis à criação. Some-se a isso o fato da tecnologia para a produção sonora ter avançado muito nas últimas décadas, a ponto de ser possível gravar um excelente disco entre o quarto e o banheiro. 

 

É considerável o número de obras musicais que estão sendo construídas no período de quarentena. Uma das mais interessantes vem de uma casa no bairro da Pompeia, em São Paulo, onde vive o cantor e compositor sergipano Allen Alencar. Ele acaba de lançar "Rastro", canção que criou em cima de poema de Brunno Fsc. A música está em vídeo no Youtube e em todas as plataformas digitais, incluindo o Bandcamp, onde é possível comprar a faixa e colaborar com o artista. Ela faz parte do EP "Rastro (Música para 2 Poemas"), que também apresenta a faixa "1964". 

 

 

 

 

Mais conhecido pelo trabalho como guitarrista de Guizado, Meno del Picchia, Fafá de Belém, Soledad e Lara Aufranc, Allen vem abrindo a fresta de sua produção autoral, seja pelo duo Amarelo (com Meno), seja na carreira solo. Ano passado ele lançou seu primeiro disco, "Esse Não É Um Bom Verão Pra Nós". 

 

A produção segue o esquema isolamento: Allen toca violão, guitarra, sintetizador e mellotron, além de filmar e editar o clipe. Conversei com ele sobre esses e outros assuntos:

 

Eduardo Lemos: Como rolou a decisão de gravar um EP (ou um single duplo)? Você já vinha pensando nisso ou a quarentena trouxe a ideia à tona?

 

Allen Alencar: Eu já vinha pensando nisso, mas a princípio ia usar outras músicas que eu já havia feito e já vinha mexendo em casa. Não sei se iria lançar agora, mas uma hora ia. No meio do caminho aconteceu tudo isso, a pandemia, a quarentena e então acabei intensificando a produção de várias coisas aqui no home estúdio que eu tenho.  Essas duas músicas porém nasceram nesse período de quarentena, nessa onda de intensificar a produção. São poemas de dois amigos, o Lobo Guará e o Brunno Fsc , que acabei musicando e tornando canção e daí nessa vontade lançar um EP ou alguma coisa, percebi que essas duas músicas tinham esse laço de serem poemas que eu musiquei, de terem vindo dessa outra linguagem que é a poesia; daí achei interessante amarrar isso e soltar justo essas duas como um material só.

 

E como você tá lidando com esse momento? Profissionalmente, como músico e compositor, e pessoalmente, como você enxerga isso tudo que estamos passando?

 

A gente lida né? Umas vezes bem, outras não tanto. Uma variação de humor enorme dentro de um mesmo dia, essas coisas. Não é necessariamente fácil, mas temos que atravessar isso, não tem outra opção. Como músico, o trabalho lá fora foi interrompido, o que de alguma forma é uma catástrofe pra gente, financeiramente e espiritualmente. Por outro lado, eu vejo a gente achando formas de driblar isso, com contribuições, colaborações, um enviando música pro outro,  o pessoal acelerou essa produção remota, acho massa; talvez isso de alguma forma se consolide mais ainda depois da quarentena como um jeito de fazer as coisas. Mas se encontrar e tocar junto, trocar idéias, sentir a coisa coletivamente ainda não tem preço.  Acho que esse momento é da gente entender mesmo, como vi o Amarante falando outro dia, que a saúde de um é a saúde de todos, o dinheiro de um tem que ser o dinheiro de todos. Espero que a gente compreenda isso, acho difícil, mas a esperança é que saiamos disso melhor, um pouco mais conscientes da necessidade de uma sociedade mais igual, de um mundo menos acumulador e predatório. Assim espero mas não sei se acredito (risos).

 

 

 

 

O clipe capta bem a onda que estamos vivendo agora: o mundo visto pela janela, a rua que temos é vazia (e rápida), atenção pros detalhes... e você mirando a câmera a maior parte do tempo também me trouxe a ideia de olharmos pra nós mesmos nesse período de silêncio. Queria saber como foi criar esse vídeo, como você foi desenhando ele na sua cabeça e ao mesmo tempo captando as imagens…

 

Acho que você traduziu bem. Eu me lancei a fazer o vídeo, filmar e editar , queria mesmo que fosse pelas minhas mãos e pelos meus olhos. Levei uns três dias captando as imagens que estavam ao meu alcance, quis captar o que eu podia ver, a nesse silêncio, ver de dentro o de fora, e de fora o de dentro. Não tive pudor de encarar a câmera , fiz questão ver o meu olhar, de ver o que eu olhava. 

 

Acho que o exercício de olhar pra fora e olhar pra dentro sempre foi imprescindível na vida, mas isso agora ganhou outra dimensão. Em alguma medida olhar pra fora e olhar pra dentro são a mesma coisa, porque a gente só existe na medida que existe o outro esse outro, que pode ser a gente também, visto de outro lugar, é o que, como indivíduos, nos movimenta. Se achar e se perder. Ser um e ser outro.

 

A música ficou bastante envolvente, no sentido de trazer um clima melancólico mas também de libertação (ao menos vi isso). Como foi construir essa canção, inclusive o desafio de construir em cima de uma letra (poema) que já estava pronta?

 

Quando o Brunno Fsc me mostrou o poema, ao vivo assim, falado, na hora já me pegou. No mesmo dia já peguei o violão e comecei a fazer a música. Acho que de alguma forma foi um tipo de tradução pra aquilo que eu estava sentindo. Olhar pra camêra, dizer "eu sou", é uma coisa difícil, a qual eu não estou muito acostumado. Percebi que passei muito tempo da vida dizendo: "eu não sou isso, eu não sou aquilo"'; mas afinal, o que eu era? me dei conta que eu era, e era alguma coisa, era  eu "isso e aquilo também". Guitarrista mas também compositor e produtor, que gosta de canção tanto quanto de outras linguagens musicais. Me dei conta que eu podia ser e ser várias coisas. Conhecido e desconhecido em mim mesmo. E isso é libertador.

 

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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