QUESTIONÁRIO DA QUARENTENA #6

07/07/2020

Nossa série chega ao fim com Blubell contando, em uma divertida entrevista, como tem sido esses dias de isolamento social

A cantora Blubell

 

 

Em mais de 100 dias de isolamento, assistir vídeos que mostram pessoas pela cidade virou algo quase terapêutico. Um desse vídeos foi o clipe de “Vida em Vermelho”, de 2016 da cantora Blubell, filmado em um delicioso dia no Minhocão, no centro de São Paulo, com as pessoas passeando sem pressa, sem preocupação, sem medo da vida.

 

A música faz parte do disco “Confissões de Camarim”, seu último trabalho. Em junho deste ano, deveríamos ter visto o lançamento do álbum “Música Solar Para Tempos Sombrios”, que viria acompanhado de um livro de crônicas de mesmo nome, e que os leitores já imaginam, não aconteceu. "Tá tudo adiado por tempo indeterminado, por ser um projeto grande, mas pretendo lançar pelo menos dois singles no segundo semestre”, conta Blubell ao Azoofa.

 

A cantora vem aproveitando as ferramentas da web e tocando projetos e vontades antigas, como a de entrevistar pessoas (ela conta mais abaixo). “Acho que quase tudo que eu tô fazendo tem a ver com o confinamento. A programação da minha vida mudou completamente. As entrevistas que estou dando, os encontros no Zoom com amigos que eu jamais encontraria com essa frequência presencialmente, meus dotes culinários que melhoraram significativamente e, cada vez mais, a consciência de que eu sou uma pessoa coberta de privilégios”, diz.

 

 

Em uma divertida entrevista, jogo aberto e que encerra a série especial, ela nos contou mais dos seus dias de isolamento: medos, mudanças, o que não recomenda e o que faria se pudesse ter um dia daqueles que antes nós chamávamos de normal hoje. Já passaram por aqui: Dani Black, Tomás Bertoni (Scalene), Clarice FalcãoPapisa e Lucas Gonçalves (Maglore).

 

 

 

 

Do que você se lembra sobre o seu último show com público ao vivo? Já imaginava que haveria essa pausa ou ainda não?

 

Sim. Foi uma participação no show da Helô Ribeiro no Sesc Belenzinho. Todas as casas de show e teatros já tinham parado, menos o Sesc. Nós ficamos esperando o show ser cancelado até horas antes e nada. Foi o último dia que o Sesc funcionou. Foi bem clima de despedida. Já sabíamos que íamos parar. A gente até chegou sem se abraçar, mas resolveu desencanar de distanciamento porque fazer um show juntos só com tchauzinho não ia dar. Foi a última vez que eu abracei gente. Faz três meses que só abraço meu cachorro. E que dou graças à Deusa que tenho esse cachorro. Nós dois somos uma família.

 

 

Você se lembra de quando caiu a ficha de que a situação era séria? 

 

Sim. Foi vendo uma live do Bruno Torturra. Sou “brunette”. Vejo todas. Lembro que tava achando as notícias no mainstream sensacionalistas, mas aí quando o Bruno chamou atenção pra isso, passei a ver de outra forma.

 

 

Se soubesse o que viria, o que gostaria de ter feito neste último dia, mas não fez?

 

Sexo. (risos nervosos….)

 

 

Qual foi o momento mais divertido nessa quarentena até agora?

 

Caramba… Foram muitos, por incrível que pareça… As lives estão salvando… Meu programa de entrevistas Máquina do Tempo também tá salvando. Eu sempre quis ser entrevistadora. Cheguei a gravar um piloto de programa de TV em 2018 que não vingou. E tem rolado esses shows com bate papo, que eu batizei de Happy Hour

 

Tá sendo muito maravilhoso conhecer melhor as pessoas que apreciam meu trabalho. Elas não são muito diferentes de mim. Acho que essa aproximação do artista com seu público sem o atravessamento uma curadoria é o futuro. Amanda Palmer é minha pastora e nada me faltará… Tenho encontrado amigos no Zoom também e tem rolado altas “fogueiras digitais” com gente muito linda. Não tô me sentindo nada isolada. Pelo contrário. Tô mais próxima do que nunca dos amigos.

 

 

Qual foi o seu maior medo até agora?

 

Meu maior medo é pelo futuro do Brasil. É triste demais tudo que tá acontecendo aqui… E dá pra ver que até a coisa começar a melhorar, ela vai piorar mais um pouco. Resta saber o quanto.

 

 

 

 

Qual foi a sua maior conquista na quarentena?

 

Acho que minha maior conquista foi ficar bem. Eu tô bem melhor do que achei que fosse ficar. Claro que oscilando, como todo mundo, mas tô ancorada, sabe? Graças à Deusa, tenho um apê bem iluminado e cheio de plantas, medito todo dia, saio pra correr com meu cachorro num bairro gostoso e arborizado, tô me alimentando bem e dormindo relativamente bem. É muito privilégio. Gostaria de aproveitar o momento e, também, agradecer minha terapeuta. Um beijo, Renata!  É claro que eu tenho meus momentos de desespero e lama também. Bebo, choro e me escondo debaixo do edredom. Mas não está sendo a norma.

 

 

Nesses dias de isolamento, você não recomenda…

 

Não recomendo ficar completamente trancado em casa sem ver a luz do sol e sem se exercitar minimamente. Tenho vários amigos que estão assim e me preocupo demais com eles porque acho que isso deprime e faz mal até pro sistema imunológico. Acho que sair de máscara ao ar livre é mais saudável do que ficar completamente trancado em casa.

 

 

Vi que você participou de sarau literário, fez lives diferentes, conversou com outros artistas... o que você tem tirado dessas experiências? Acho que não teríamos aproveitando tanto esses canais em outra situação…

 

Não teríamos. Eu sei que é piegas, mas aquela coisa de que “o chinês tem a mesma palavra para crise e oportunidade” é real. Tô tentando fazer limonada… Eu tenho uma outra teoria, a de que a vida é um game. A gente vai mudando de fase. Quando a gente fica bom numa fase, a gente passa pra uma mais complexa. Comigo sempre foi assim. E isso me deu clareza pra perceber que se eu mudei de fase, é porque eu tenho habilidade e ferramentas suficientes para passar pela fase onde estou agora.

 

 

Nesse isolamento você percebeu que não pode viver sem…

 

Uma rede de afeto com amigos verdadeiros. Mas isso eu já sabia... Também acho que não consigo mais viver sem ter a certeza de que estou fazendo tudo que posso para contribuir com o bem comum. Comunidade pra mim é mais importante do que casamento e família nuclear. Essa foi uma ficha que caiu pra mim faz pouco tempo, tanto no sentido de ter minha “família escolhida”, quanto no sentido social mesmo. Claro que tem momentos em que eu me sinto completamente inútil diante de tanta injustiça, sabendo que eu não cheguei nem no começo da iluminação que eu gostaria de chegar. Mas tenho trabalhado com a ideia de que dá pra fazer coisas pequenas também. Fazer um trabalho bonito e caprichado, aprender a estender a mão de diferentes maneiras. Até mesmo sorrir mais pros outros. Tenho conseguido sorrir com os olhos de máscara pela rua e recebendo sorrisos de volta. Parece pouco, mas não é. 

 

Também tô perdendo um pouco o medo de me comunicar com pessoas em situação de rua aqui do bairro, que só crescem em número. Às vezes distribuo frutas, às vezes compro o clássico Cup Noodles que eles me pedem na porta do supermercado. Também ajudo com um pouquinho por mês um coletivo que distribui marmitas semanalmente. Mas isso eu nem deveria estar falando aqui. Pra quem tá muito curto de grana, distribuir olhares e sorrisos já conta muito. Essas pessoas precisam ser notadas como pessoas.

 

 

Se pudesse ter um dia normal, como antes disso tudo começar, o que você faria hoje?

 

Daria uma festa, entupindo meu apezinho de gente amada, e nem me importaria com fumaça de cigarro.

 

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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