JÁ OUVIU? NATHAN ITABORAHY

04/08/2020

Cantautor lança ‘Sentado no Céu’, seu 1º disco solo e se joga na música - depois de colaborações, escritas e um mestrado em Geografia

 

 

 

Foi ali, do alto do oitavo andar do seu apartamento em Juiz de Fora (MG) que o mineiro Nathan Itaborahy deu início às canções que fazem parte de seu primeiro disco solo, “Sentado no Céu”, lançado em julho deste ano, via Tratore. O disco marca também um passo importante na carreira do cantautor, como ele se define: é a sua maior aposta na música, uma velha companheira que ficou em segundo plano por um tempo.


"Foi um processo, na verdade. Comecei cedo como baterista e desde a adolescência toco na noite. Levei por um bom tempo uma vida dupla estudando e tendo a rotina como músico. Nisso, gravei meu primeiro disco como batera da Eta!Noise, mas ainda não era de compor, apesar de já tocar violão. A composição me pegou mesmo quando estava fazendo o mestrado e comecei a ter uma relação mais forte com a palavra, com a escrita”, conta ele em entrevista ao Azoofa.

 

Tocando em outras bandas de lá, trocando experiências com outros compositores e em muitas noites tocando em barzinhos, Nathan diz que nestes momentos estava ali servindo como músico. “Aos poucos fui entendendo que esse acúmulo de canções mais confessionais podia ser uma coisa, um lugar, um projeto, e assumi com mais clareza a disposição de cantar minhas próprias canções, de ser cantautor; sair da bateria pra vir pra frente do palco”.

 

 

 

 

A VOLTA PARA CASA

 

Nathan se formou em Geografia em Juiz de Fora e cursou o mestrado na UFMG, em Belo Horizonte. A capital mineira foi sua casa por dois anos. "Logo depois que finalizei o mestrado bateu um pouco o peso da responsabilidade da vida adulta. Vi que eu ia fazer doutorado e seguir aquela vida, como meus professores seguiam. Me deu uma sensação ruim saber que já tinha um caminho e de sentir que poderia ficar com o 'fantasminha' da música pra sempre na cabeça", conta ele. "Me deu vontade de desinstitucionalizar minha vida e meu pensamento e falar do jeito que eu queria, sem pirar nos protocolos, citações, referências, etc".

 

A volta pra casa serviu de recomeço. Todas as canções do disco foram compostas nesse período, de uns quatro anos pra cá. “Algumas delas passaram por outros projetos, foram arranjadas e tocadas, mas a maioria foi a primeira vez pensada como uma faixa de um disco, como uma sonoridade”. Na cidade natal, ele passou a morar em um apartamento no centro. Dali, não exatamente do céu, mas bem perto dele, do 8º andar -- afinal, no interior tem-se a sensação de que o céu está sempre mais perto da gente, repare --, as pessoas e histórias acabam servindo como inspirações cotidianas.

 

"Normalmente, o que mais me chama atenção é algum acaso dentro da rotina da rua, algum tipo de movimento que escape à normalidade dos movimentos da cidade. Um tropeço de alguém, uma cena banal que tem algum tipo de curiosidade, uma melodia que alguém passa assobiando. Isso acontece o tempo inteiro. É tipo olhar pra nuvem e achar alguma forma, se parar pra caçar, vai achar. Dá pra olhar aqui de cima pra cidade e achar microcenas cheias de relevância, ou mesmo forjar o conteúdo de uma conversa, imaginar para onde e por que um casal passa correndo daquele jeito. Cine-vida”.

 

 

Nathan Itaborahy (Foto: Clara Castro)

 

 

SENTADO NO CÉU

 

Com os dois pés na música popular brasileira, Nathan é um expoente novo do som das Gerais. Um som tão brasileiro, de canções sobre coisas cotidianas, do violão, de valorizar o que se canta. E ele segue bem esse caminho.

 

"Sentado no Céu", que dá nome ao disco, foi a primeira composição deste trabalho. É uma vinheta, bem despretensiosa, e funciona como um prólogo. Nos seus poucos versos ela fala sobre essa coisa de viver no apartamento, da sensação urbana de estar vivendo na altura, apartado, e assistir o mundo moendo lá embaixo.

 

"Penso muito sobre tudo que implica nas nossas relações essa coisa de viver na cidade e nos apartamentos, essas pequenas caixinhas suspensas, que nos aproximam e nos afastam. Por vezes me senti assim, ‘sentado no céu’, como se tivesse aqui totalmente descompromissado com a certeza do movimento da cidade lá embaixo", explica o artista.

 

"Macaco Véio", parceria com Rogério Arantes, foi escolhida como primeiro single do disco. O clipe foi gravado de maneira colaborativa, com imagens enviadas por 38 pessoas em suas casas na quarentena. A música fala um pouco sobre dar uma pirada. Outra faixa, “Eu Quero Me Livrar de Mim”, também fala sobre certos conflitos nossos. São momentos mais rock do disco. Estaria mais fácil dar uma enlouquecida nesses dias em casa?

 

“Pois é, o disco tem esses momentos mais rebeldes, de descarrego. Gosto muito disso, da arte passar também pelo berro, pela fossa. Entender que a gente é incoerente, contraditório. Que o desbunde pode alimentar a sanidade. E, realmente, está muito mais fácil pirar nesses dias em casa, em vários dos dias a casa parece que fica pequena pra gente. Mas acho que vamos nos equilibrando sempre do jeito que dá, a gente arruma um jeito de acalmar quando está pirando demais e vice e versa. As coisas se equilibram do jeito que dá e a gente sobrevive”.

 

O mineiro até repensou o lançamento do disco devido à pandemia. “Num primeiro momento, ainda sem ter muita clareza do tempo que ficaríamos sem shows, até cogitei mesmo segurar. Mas me bateu uma intuição de que botar no mundo agora seria interessante e que não tinha sentido a coisa ficar parada aqui comigo. Arte é pro mundo. Foi legal porque tenho recebido umas mensagens tão fortes e profundas sobre o álbum; parece que todo mundo anda meio sensível e acho que acabei confirmando essa intuição”, conta.

 

 

 O mineiro Nathan Itaborahy (Foto: Clara Castro)

 

 

Outros destaques do repertório são "Hey Tu", sobre tentar, se arriscar, uma parceria com Tiago Teixeira; "Solta" funciona como um respiro no disco, feita após o momento conturbado do pós eleição em 2018, e traz a participaçaõ da cantora Clara Castro, namorada de Nathan; e tem ainda "Amo Ana ano Afora", uma declaração para a cantora.  

 

"Pessoa" é a única canção do disco que já foi gravada antes. Nasceu de um haikai do livro "Devaneios Necessários", de Nathan. É uma vinheta, uma faixa sem instrumentos de harmonia, totalmente experimental.  “Encontro Casual”, também já lançada como single, é outra parceria com Arantes, poeta e amigo, e que nasceu de um poema.

 

Para setembro, ele planeja lançar o podcast sobre os processos criativos da canção e faz parte das suas reflexões que levaram ao disco, que foi produzido com ajuda do financiamento coletivo. Nathan alcançou a meta em 45 dias. Qual o segredo de uma campanha engajada?

 

Ter se apoiado em “relações bem concretas”, conta ele. "Fiz uma lista de pessoas que conheciam meu trabalho de alguma maneira - parentes, amigos, companheiros de trabalho, etc - e mandei um áudio de whatsapp para cada uma dessas pessoas, antes de fazer o financiamento coletivo. Foi um jeito de estabelecer uma relação bem honesta e direta com essas pessoas e ter uma noção de quantas pessoas eu poderia contar. Isso me possibilitou ficar acima da meta ideal da campanha durante todo o tempo e bater a meta com uma semana de antecedência, e o melhor, não tive que pentelhar ninguém”, brinca.

 

 

 

 

NOVAS MUDANÇAS A CAMINHO

 

“Eu decidi, sou carne em movimento, moça, eu vivo vento...”. Assim como o verso da faixa “Vivo Vento”, Nathan está em movimento e já anuncia outra mudança: a vinda para São Paulo.

 

“Tenho ido bastante a São Paulo nos últimos tempos, conhecendo um pouco as pessoas e as possibilidades. Curto muito o som que é feito e gravado hoje em Sampa. Quero poder conviver com outras pessoas, estabelecer outras conexões, espalhar o ‘Sentado no Céu’ e estudar um pouco de produção musical, enfim, dar um outro passo na carreira, pagar pra ver no que dá. Às vezes me sinto meio limitado pelas possibilidades do mercado da música do interior e queria experimentar outros contextos”, diz ele.

 

Do que ele vai sentir falta quando lembrar de Minas? “Pra não falar da comida e da família, é dessa coisa boa de cidade pequena, de conhecer todo mundo, de estar perto de tudo, sempre conhecer alguém por onde eu passo. Uma coisa de comunidade mineira camponesa que uma cidade média como Juiz de Fora consegue de alguma forma preservar, ‘entra pra tomar um cafezinho’…”.  

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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