AS COLAGENS DE ANNÁ

08/09/2020

No primeiro disco, ‘Colar’, a cantora faz uma viagem do funk ao tropicalismo; leia a entrevista

A cantora Anná (Foto: Filipa Aurélio)

 

 

Samba, funk, punk, rock, tango e forró. Cabe tudo isso na “poligamia musical” de Anná. A cantora lançou recentemente seu primeiro disco, “Colar”, depois de incursões pelo samba, um EP em 2017 e muitos questionamentos. Entre eles, não ser taxada como cantora de um estilo só.

 

Essa combinação de diferentes gêneros se concretiza em uma divertida viagem. Partindo da "música de colagem", a cantora, cineasta e artista plástica se utiliza de diversas identidades sonoras em cada faixa. "Este estudo começou com as minhas colagens visuais e depois percebi que podia levar isso pra minha música", conta Anná.

 

“Colar” sucede o EP “Pesada”, de 2017, onde a cantora apontava o dedo para questões e padrões sociais. O disco parece suavizar as críticas, ao que ela avalia como uma mudança de perspectiva, não uma suavização: “As críticas sociais devem ser questões internas”. De fato, elas estão ali nos questionando sobre nosso papel no coletivo (como na faixa “Se Cada 1”), nossas certezas absolutas (“Não ao Certo”), os embates da vida adulta (“Ser Adulto”), entre outras.

 

Na sonoridade, o disco é bem criativo. A banda está lá numa pegada jazz, enquanto Anná está na transição da MPB para... o funk, por que não? Isso para citar um exemplo. Não se assuste se achar que estava ouvindo uma música e ela acabou e voltou depois. São apenas diferentes viagens dentro de uma faixa só -- o que ela explicou em um víde-manifesto que você mais abaixo.

 

 O primeiro single lançado foi "Sobre Rosa", música que conta com a participação de Ilú Obá de Min e parte de um questionamento micro: "Por que há tantas músicas e poemas sobre rosas? O que elas têm que as outras flores não têm?" para chegar em questionamentos maiores sobre o universo.

 

O disco, que traz muito movimento, termina curiosamente com a instrumental “Embalo”, uma faixa-bônus para dar um respiro, conta ela. Na faixa, ela diz imaginar "Pixinguinha na cadeira de balanço e eu no colo dele como se eu fosse um neném embalado num cobertor, e ele cantando baixinho isso pra mim, pra me fazer dormir".

 

Abaixo, ela fala mais da carreira e sobre “Colar”.

 

 

 

Me conta um pouco de onde vem a Anná e qual sua trajetória musical?

 

A Anná é um exponencial da Anna Paula, vulgo euzinha rs. Sempre cantei, sempre fui apaixonada por música, tão apaixonada que consigo citar músicas que transformaram minha vida objetivamente. A música me educou e me ajudou a me conhecer de verdade. Sou de Mococa, interior de SP, mas nunca tinha imaginado que poderia ser cantora profissional. Quando vim morar em São Paulo – pra fazer faculdade de cinema – percebi que o sonho é possível e me joguei de cabeça. Comecei cantando em bares de samba, pesquisei e aprendi muito no meio do samba, conheci muita gente maravilhosa, então fui expandindo e entendo a importância do trabalho autoral, que é o que me guia atualmente.

 

 

Esse disco tem um quê de libertação, seja nas letras e na forma de cantar. É uma impressão correta? Se sim, é uma libertação de quê?

 

Acho que todas as impressões sobre o disco são ‘corretas’, não existe impressão errada. Sim, fazer esse álbum me exigiu muita libertação, foi um processo de desprendimento de máscaras e pressões externas para encontrar quem realmente sou. Libertação de muitas inseguranças, de limites que só existiam na minha cabeça, libertação de rótulos, de palpites alheios, libertação de coisas que nos são impostas, mas não são nossas, sabe? Danço rumo ao Sol de braços abertos, pois nada me impede.

 

 

Você já tem um bom tempo de carreira, o que você estava esperando pra concluir esse primeiro registro?

 

“Um bom tempo de carreira” é meio relativo, né? Comecei a cantar profissionalmente em bares em 2016, de lá pra cá venho caminhando dando o meu melhor. Não gravei um disco cheio antes porque não era possível, eu ainda não estava madura para isso, não tinha nem as composições nem as condições de materializar isso. Mas em 2016 eu lancei meu primeiro clipe “Janaína”, meio tateando o solo pra entender como funcionava isso de ‘fazer música autoral’.

 

Em 2017 lancei meu EP “Pesada” através de financiamento coletivo e consegui um espaço já em Sescs e outros palcos. Em 2018 comecei a erguer as composições e as ideias do “Colar”, e de lá pra cá eu só penso nesse projeto dia e noite (risos). Então eu considero quatro anos de carreira, com cada passo sendo dado cheio de verdade, cuidado e dedicação.

 

 

 

 

‘Colar’ tem participações do bloco Ilú Obá de Min, do pianista Salomão Soares e do clarinetista Alexandre Ribeiro. Como pintou o convite, são pessoas importantes na sua trajetória, amigos, como é?

 

São relações bem diferentes. O Ilú faz parte da minha história, tenho a honra de fazer parte do bloco desde 2016, e aprendi demais lá, conheci muita gente, vivi muitas histórias, então existe essa relação bem próxima de troca e de muita admiração. Fiquei muito honrada quando elas toparam o convite, e ao mesmo tempo me senti muito em casa, porque já conhecia as mulheres. A presença do Ilú Obá neste álbum representa meu respeito e reverência à cultura afro-brasileira e à força feminina/feminista.

 

Quanto ao Salomão e ao Alê, são músicos de altíssimo nível que representam a virtuose, a genialidade, a entrega completa ao instrumento, o que eu admiro muito. Eu conheci o Salomão através de um trabalho que fizemos juntos. Eu já era fã e coloquei minha cara de pau em jogo fazendo o convite. Ele topou na hora, foi muito aberto e querido na gravação. Já o Alê Ribeiro é um clarinetista muito aclamado no meio do samba, eu sempre ouvia falar dele. O Renato Enoki, produtor musical do disco, é muito amigo dele e sugeriu convidá-lo. Topei na hora e ele também, aí colou!

 

 

Li algumas coisas sobre quando você chegou a São Paulo e viu muito machismo nas rodas, nesse meio. Isso te distanciou do gênero?

 

Entender o machismo no samba não me distanciou do gênero, pelo contrário, só me aproximou. Acabei produzindo e dirigindo o curta-metragem “Bambas” que aborda a presença feminina no samba de São Paulo, e me juntei a muitas pessoas com essa bandeira. Tenho a alegria de lutar essa batalha ao lado de mulheres gigantes como as do Samba de Dandara, Raquel Tobias, Adriana Moreira, Geovana, e tantas outras. Agora, esse tal ‘distanciamento’ é assim: eu amo samba – mas não amo só samba, entende? Sou poligâmica musical (risos). Distanciei-me (ou expandi-me) antes que firmassem um rótulo de ‘cantora de samba’ em mim que eu não pudesse mais tirar.

 

 

 

E hoje, como você vê isso na música: as mulheres têm mais espaço ou ainda é uma luta diária conseguir esse protagonismo em determinados estilos?

 

Vai ser meio clichê dizer isso, mas o avanço do feminismo é palpável em vários âmbitos sociais, porém a luta continua, a desconstrução está só começando. Temos sim muitas conquistas a celebrar, mas muito, muito mesmo a descontruir ainda. Reconheço os avanços e continuo lutando pela equidade. Felizmente afirmo que conheço muitos grupos musicais protagonizados por mulheres surgidos nos últimos cinco anos, estamos engatinhando com sangue nozóio rs.

 

 

O EP Pesada, que antecedeu Colar já trazia uma mistura musical. O que você diria que mudou musicalmente no seu trabalho de lá pra cá?

 

No meu EP Pesada eu fazia as colagens musicais inconscientemente. O que mudou é que em “Colar” eu tomei consciência desse processo/conceito e resolvi radicalizar. Até onde dá pra ir com essa ideia de colagem musical? Será que rola colocar frevo, afrobeat, samba reggae e hip hop numa faixa? Deu certo em ‘Plantaram Poesia’. E agora consigo ver que por esse caminho ainda tem muito pra explorar.

 

 

Você considera este trabalho mais sutil em termos de críticas sociais e mais voltado para questões mais pessoais, internas?

 

Eu não diferencio mais ‘críticas sociais’ com ‘questões internas’, acho que são coisas que andam juntas, que buscam nossa evolução de alguma maneira. Ou seja, críticas sociais devem ser questões internas. Meus primeiros trabalhos tinham uma urgência de gritar as injustiças e fazer arte revolucionária. Resolvi respirar, parar de querer mudar os outros e refletir sobre minhas revoluções pessoais. A gente quer mudar o mundo só por mudar? Como mudar fora sem mudar dentro? O que eu preciso mudar dentro de mim para meu mundo mudar? Ando por este caminho atualmente.

 

 

O que te move a fazer música hoje?

 

Que linda pergunta. A música é minha principal maneira de me colocar no mundo, é minha religião, minha espiritualidade, também é meu ganha pão, ela tem inclusive pautado minhas relações sociais. Ou seja, minha vida gira em torno da música como a Terra gira em torno do Sol. O que move a Terra é a gravidade, e é o mesmo que me move, uma força irrefreável que vem do centro de dentro de mim.

 

 

E como você está pensando trabalhar esse disco com a gente ainda nessa retomada aos poucos. Shows presenciais ainda devem demorar?

 

Apesar de milhões de críticas às lives, é o que temos no momento. Vou fazer uma belíssima live de lançamento e torcer para a vacina chegar logo. Não tenho coragem de fazer um show que ponha as pessoas em risco nesse momento. Não está fácil, mas vai passar! E quando passar o bagulho vai ser loko.

 

 

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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