Azoofa Indica: Filipe Catto canta Cássia Eller

19/07/2017

Filipe Catto e Cássia Eller não se conheceram. A cantora carioca faleceu em 2001 e não pode ver o jovem cantor gaúcho nascer para a música com o lançamento de seu primeiro EP, em 2009 e, cinco anos e 2 ótimos álbuns depois, tornar-se um dos nomes mais interessantes da nova geração de cantores brasileiros.

Mas Cássia tem muito a ver com essa história. Suas músicas sempre estiveram nos ouvidos e no coração de Filipe. Por isso, o show "Filipe Catto canta Cássia Eller", que será apresentado neste sábado, às 18h na Galeria Olido, com entrada gratuita (saiba mais) é mais do que uma homenagem a uma das cantoras mais importantes da MPB - é, sem dúvida, um encontro entre Filipe e Cássia. "Cantar o repertório da Cássia é revisitar também minha própria história, porque estas músicas foram a trilha da minha vida", explica o músico.

Em entrevista exclusiva ao Azoofa, Filipe fala sobre o show deste sábado, comenta a relação entre Cássia e Nando Reis e critica a dificuldade em se aprovar a PL 122 no Senado Federal.

AZOOFA: Filipe, os shows no Sesc Vila Mariana, em maio, tiveram ingressos esgotados e a repercussão foi muito positiva. Qual é a expectativa de agora apresentar este espetáculo com entrada gratuita?

Filipe Catto: Acho que vai ser emocionante. É muito importante democratizar a cultura, poder levar estes espetáculos a espaços onde a população toda tem acesso, ainda mais se tratando de um tributo a uma artista muito querida por todos.

Passados quase 2 meses, como você vê os shows realizados no Sesc?  E, de lá pra cá, você alterou algo no show?

Não, continuam com o mesmo repertório, a mesma direção. Este show é como é. Foi absolutamente emocionante realizar este projeto, porque cantar o repertório da Cássia é revisitar também minha própria história. Estas músicas foram a trilha da minha vida.

A Cássia lançou diversos discos na carreira. Como foi esse processo de definição do repertório? Falou mais alto o lado emocional ou técnico?

Falou só o emocional, eu escolhi as músicas que mais gostava e também as que ficavam mais bacanas na minha voz, que diziam respeito a mim pessoalmente, acima de tudo.

Você inclui alguns covers que Cássia costumava cantar em seus shows. Qual deles você acha que mais traduz a personalidade dela?

Acho o momento do “Smells Like Teen Spirit” [da banda americana Nirvana] muito especial, porque ela sempre cantava esta música nos shows e acho que tem tudo a ver com Cássia está canção... Mas a Cássia não fazia cover, né? Tudo o que ela cantava, ela acabava roubando! (risos)

Cássia era intérprete e fala-se muito de como sua voz se casava perfeitamente às composições de Nando Reis (ele mesmo assume isso em “All-Star”). No show, você canta pelo menos três canções que ele fez para ela (“ECT”, “O Segundo Sol” e “Relicário”). Como você vê essa relação entre a música dele e a voz dela? É algo raro de se encontrar, não?

É uma parceria lindíssima. São realmente poucas histórias como a deles na música. Existia ali uma cumplicidade absurda, e a Cássia sabia revelar as letras do Nando como ninguém. É uma historia de amor muito forte a dos dois.

Como rolou a ideia do projeto? Surgiu na época do espetáculo “Cássia por Eles”?

Foi sim. Fiquei muito emocionado de fazer o tributo em Brasília na sala onde a Cássia começou a cantar, porque eu sou muito fã dela, sempre fui. E depois fiquei nessa vontade de fazer novamente, porque estava mais do que na hora de se homenagear a Cássia e tudo que ela representa na música brasileira. Ali em Brasília foi o primeiro gostinho do que viria a ser o show agora.

Um projeto como este, imagino, faz você se relacionar profundamente com as canções. Qual música da Cássia que, durante esse período, você descobriu ou redescobriu e que te chamou a atenção de maneira especial?

Todas. Porque quando eu canto eu estou levando pro meu mundo tudo aquilo, misturando. Mas “Rubens”, que fala de um casal gay, é uma música muito importante de ser cantada agora, porque é muito liberta, muito inovadora e as pessoas estão precisando levar uma sacudida sobre essa parada da PL 122 [projeto de lei que visa criminalizar a homofobia e que está parado na Comissão de Direitos Humanos do Senado] que precisa ir pra frente. Fica esse cabo de guerra entre o os direitos básicos de qualquer cidadão e os poderes religiosos do país. Uma vergonha isso acontecer em 2014.

Por fim: há algumas pessoas pedindo que este projeto dure mais, viaje a mais cidades e seja registrado em áudio e vídeo. Qual é o futuro deste show?

É fazer ele! Adoro tocar esse show, mas ele é um projeto presencial, só existe ali, no palco. Não pretendo gravar DVD nem CD deste repertório, não acho necessário. Mas o show é, porque é divertido, emocionante, eu me sinto grato de poder ser o cantor fazendo este tributo à esta pessoa inacreditável que foi a Cássia... Não sei do futuro deste show, mas sei que no presente ele está sendo um tesão de fazer e isso já é maravilhoso!

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arte | belisa bagiani

 
Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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