Após 17 anos, Beto Villares lança novo disco; leia entrevista

09/03/2020

 


"Demorei 17 anos pra lançar um segundo disco. E ele tem só oito músicas", diz Beto Villares, rindo, num show há 2 semanas em São Paulo. A plateia ri junto. Ambos, artista e público, agora podem rir de alegria: o novo álbum de Beto Villares chegou. Ele se chama "Aqui Deus Andou" [Ambulantes Discos] e está disponível em todas as plataformas digitais. 


Gravado em 2015, o trabalho tem Beto Villares na voz, guitarra e violão de aço, Zé Nigro no baixo, Samuel Fraga na bateria, Mauricio Badé e Mestre Nico na percussão, Gil Duarte no trombone e voz e Gabriel Millet no sax barítono. 

 

Se em "Excelentes Lugares Bonitos", seu disco de estreia em 2003, Beto convida o ouvinte a sentar na garupa e fazer uma viagem Brasil afora, neste novo trabalho a jornada é para o interior de si mesmo. 


A mudança já começa pelas capas: em "Excelentes", um corpo brinca no mar. Em "Aqui Deus Andou", vemos Beto com olhar sereno em fundo preto. Nomes como Céu, Anelis, Fernanda Takai e Zélia Duncan participavam do primeiro disco; agora, há apenas Manoel Cordeiro nos teclados de "Festa Baile". A produção de "Aqui Deus Andou", assinada por Beto em co-autoria com Zé Nigro, também surge mais econômica e direta, menos exuberante que de seu antecessor.


A euforia deu lugar à reflexão, e é impossível não fazer um paralelo com a situação política e social do país nestes 17 anos. Ainda assim, não há espaço para tristeza nem melancolia. Faixas como "Festa Baile" e "Ôôô" são convites para dançar e mesmo a realista "Aqui Tudo Demora" faz sua crítica à burocracia brasileira acompanhada de envolvente arranjo de metais e percussão. 


Na entrevista abaixo concedida a Eduardo Lemos, Beto fala sobre seu aguardado álbum número 2, comenta sobre as canções e as diferenças entre ser artista em 2003 e 2020. 


É quase um chiste essa coisa de você ter demorado 17 anos pra lançar o sucessor do "Excelentes Lugares Bonitos". No show, você também brinca com isso. Demorou muito mesmo ou isso é mais uma expectativa dos outros, e você nunca quis sair lançando discos, mesmo depois da boa recepção do "Excelentes"?


Eu brinco com essa demora, que talvez seja um recorde, mas não deve ser não! Já achei que estava fazendo esse disco, e a expectativa foi minha sim, mas sempre abafada pela necessidade de fazer os projetos, trilhas e produções que estive fazendo. Eu sempre quis, e estou agora finalmente, re-começando, em um outro mundo, já!



 


Da mesma forma que no "Excelentes", o título traz um tom de jornada, de viagem. Fazendo um paralelo com a literatura, se o disco fosse um livro, por onde esse personagem andou e o que ele tem pra contar dessas andanças?


É mesmo. Tem histórias. O título é uma frase que tá no meu caderno desde 2003, antes de lançar o Excelentes... Ela vem de uma viagem pelo Rio Negro (Amazônia), em janeiro desse ano, a mesma onde fiz o poema de "Casa de Caboclo". Lembranças mais antigas ainda vêm com "Vaga Lume". Imagens, lugares, ritmos, desejos estéticos, alegrias e solidões, sonhos. As músicas foram gravadas em 2015. Depois ainda teriam outras andanças...


A escolha por 8 canções supõe um desejo de ser sucinto, rápido e direto, três características da comunicação dos tempos atuais. O que te levou a selecionar apenas 8 canções, sendo que, teoricamente, você teria dezenas de músicas compostas nesse período de hiato?


Era pra ser maior, mas tem uma parte de violão de nylon, com percussão, e às vezes sopros, que eu acabei decidindo deixar para ser outro álbum. E ainda gosto de sintetizadores, e de teclados...de tocar trilhas ao vivo. Tem campo pra juntar com idéias, vontades. E tem sim gavetinhas [músicas guardadas] boas. Algumas músicas de violão, e outras um pouco mais eletrônicas que eu já estou trabalhando, tocando, e mais pra frente vou gravar.


 



Queria que você falasse da experiência de levar este álbum para os palcos. Como tem sido esse desafio? E você pretende fazer muitos shows com este disco?

 

Eu adoro tocar essas músicas! Elas nasceram comigo tocando, sozinho ou com esses amigos com quem gravei, fora outros. Diferente do ELB, que foi todo obra do estúdio, da caverna, e quando fui tocar ao vivo, demorei mais pra entender como fazer! Agora, esse é um álbum pequeno, então vai sempre estar junto de repertório novo, e de coisas antigas que ainda gosto de tocar. 

 

Que tal fazer música em 2020? O cenário é muito diferente daquele de 2003? Como produtor, compositor, diretor de trilhas para cinema, como você vê a mudança do mercado nesses 17 anos?


Tem aspectos mais fáceis, como acessibilidade aos meios de produção, e de difusão, mas tem coisas difíceis, pois a gente está vivendo uma mudança no controle da produção artística e do que é ainda direito autoral, isso sem falar de política, sociedade e meio ambiente. Mas eu tenho um caminho muito feliz, que me trouxe até aqui fazendo som, criando amizades da música e do cinema, através da música. Fazendo coisas que eu gosto de fazer, e não sofri tanto por não ter ainda feito novos discos. Se bem que agora chega de esperar. Agora vou me desdobrar para estar nos dois lugares, estúdio (compondo e produzindo), e tocando ao vivo. Equilibrar isso não é nada fácil. Não sei nem te dizer como está para quem está começando. Mas acho que música é o que nós queremos. Fazer, ouvir, e se deixar levar, por ela. Os tempos mudam, mas acho que a loucura do músico será sempre essa! E, já disse, não é fácil. Mas o que é?


 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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