SALVO PELAS CANÇÕES ESQUECIDAS

09/03/2020

Leo Middea estava quase desistindo da música quando abriu o celular e achou 100 canções suas. Uma jornada depois, ele lança o disco Vicentina

O cantor Leo Middea (Foto: Rita Grazina)

 

 

O carioca Leo Middea começou sua carreria em 2014. Mesmo com dois discos lançados - "Dois" e "A Dança do Mundo" -, não escapou de uma crise existencial, musical e de lugar. De todo um processo doloroso, de mudança, nasceu "Vicentina", um disco tropical, com ares de Gil e Caetano e reflexões bem pessoais do cantor. Não foi um caminho fácil.

 

Leo havia deixado o Rio de Janeiro -- Jacarepaguá especificamente -- rumo a Portugal em 2017, tentando seguir com a carreira de músico, depois de não ver muita perspectiva no Brasil. Desistir da música passava pela sua cabeça.

 

 

 

 

"Não estava conseguindo trabalhos com música aqui no Brasil e decidi me aventurar em Lisboa. Uma coisa que me chamou atenção em Portugal foi o carinho com que as casas tratam os artistas pequenos, apoiam a arte, e eu era um artista novo, sem público", diz ele por telefone ao Azoofa.

 

Os dias na capital portuguesa chegaram ao fim com uma decisão impactante: a mudança para Praga "por amor". Ele deixaria o sol de Lisboa pelo frio, a introspecção da capital tcheca. Uma mudança para poucos.

 

"Fui para Praga por amor, pra ficar junto com uma namorada. Mas não me adaptei e fiquei muito triste. Um dia caminhando pela cidade eu fiquei pensando que precisava fazer algo que me desse emoção", diz.

 

Numa caminhada pela cidade, buscando esse algo mais dentro de si, Leo acabou achando 100 músicas que ele havia composto e guardado no celular. Leo ligou para Paulo Novaes, amigo brasileiro que vivia em Lisboa, e disse que precisava voltar a Portugal, gravar aquelas canções. Com Novaes, que viraria produtor do disco, Leo chegou às 12 músicas que compõem "Vicentina". Restava agora, de volta a Lisboa, angariar fundos para gravar o disco.

 

"Todas as canções foram feitas em Portugal, então eu precisava gravá-las lá. Voltei e pedi dinheiro na rua (um euro por pessoa) para conseguir pagar o estúdio e depois eu não tinha dinheiro para pagar os músicos", relembra Leo. "Quando estava na rua, pedindo ajuda, ficava pensando que minha mãe estava certa", completa ele. A mãe do cantor ganhou uma música ("Mãe", última canção do disco) depois de um episódio em que ela ligou para o filho aos prantos pela situação do filho morando longe de casa.

 

 


 

 

"Com o tempo fui aprimorando o modo de pedir, via pessoas numa praça e tinha gente que não acreditava que eu estava pedindo dinheiro para gravar um disco então eu tinha que mostrar todo o meu portfólio", relembra ele, que hoje ri um pouco da situação.

 

Quando olha para trás, Leo vê que aprendeu muito nos dias de incertezas e de pedinte. "Aprendi muito nesses dias. Foi um momento orgânico, natural. Tinha que sair como saiu. Comparando o que eu era antes, eu me importava muito com a opinião dos outros. Agora estou fazendo as coisas que me agradam. Faço uma coisa honesta, respeitando meu tempo, minha sinceridade", conta ele.

 

O que Leo entrega ao ouvinte é um disco bem brasileiro, com referências à sua querida Lisboa, como na faixa "Bairro da Graça" (primeira a ganhar videoclipe e na qual ele canta versos como "onde meu peito se refaz" e "eu me interesso por cantar") e ainda em "Rua de Angola 7" onde ele e os músicos cantam "tudo que a gente passou, tudo que a gente guardou, foi uma prova sincera, um amor de irmão, uma esfera".

 

 

 

 

"Divina Certeza" abre o disco já com um balanço que dá tom ao resto do álbum. "Hoje eu me olho sem surpresa" canta ele, como se lembrando dos dias sem inspiração. Há ainda a balada "Sorrindo pra Saudade" fala de um amor que ficou para trás, a bossa cadenciada de "Brasília" e a referência a terra natal em "Eu o Rio, Leste".

 

O nome do disco é uma homenagem a Vicentina, uma amiga da avó do músico e de quem ele ouviu, quando tinha 4 anos, que seria cantor quando crescesse. O disco é uma prova da perseverança de Leo, mas também de que com vocação não se brinca.

 

Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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