TELETRANSPORTAR

10/04/2020

Novo disco de Rafa Castro é viagem pelo Brasil e para dentro de si mesmo

foto: Lorena Dini

 

 

"Cada momento acontece duas vezes: por dentro e por fora, e eles são duas histórias diferentes". A frase da escritora britânica Zadie Smith me vem à mente logo que termino de reler a entrevista que fiz com o músico mineiro Rafa Castro sobre seu novo disco, "Teletransportar", que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira.  

 

Pois trata-se de um álbum essencialmente de jornada, no caso, a dele e de sua companheira pelo que ele chama de "Brasil profundo", e eu imagino que ele queira dizer esse Brasil não das metrópoles, mas um Brasil onde a natureza persiste, onde a nossa vocação para a beleza resiste: Amazônia, Ilha do Marajó. 

 

Mas há a outra jornada, a interna, consequência direta da primeira, mas ainda assim uma coisa completamente diferente, como avisa a Zadie Smith. Ao ver um pescador contar que passa quase o ano inteiro no mar, Rafa imagina como se dá sua despedida da terra firme. Ao caminhar por uma floresta amazônica, ele encontra a juventude - e a chave temática do disco.

 

"Teletransportar", porém, é mais do que a junção de duas jornadas, porque há a terceira, a do ouvinte, que começa agora. 

 

 

 

 

Em 11 faixas inéditas - cujo single, "Cheiro do Mar", saiu com clipe na semana passada -, o novo álbum de Rafa Castro é uma viagem para dentro do Brasil e uma viagem para dentro da sensibilidade de um compositor disposto a captar a realidade e transformá-la em poesia (e poetizar a transformação), cuja musicalidade não esconde suas referências na produção brasileira dos anos 70, mas o faz com tamanha originalidade que as canções - novas - também parecem clássicos. 

 

Bati um papo com ele sobre o álbum, sua formação musical, as viagens pelo Brasil e a decisão de lançar um trabalho em meio à pandemia do coronavírus. 

 

Este é o primeiro trabalho que você coloca duas vozes a favor da canção - a voz cantada e a voz escrita. Como se deu esse processo, artisticamente e pessoalmente falando, em que você decide trazer esses elementos para o seu trabalho? 

 

Rafa Castro: No meu último disco, Fronteira, eu já cantava minhas raízes dentro da música mineira e um recorte das trilhas sonoras que fiz nos últimos tempos. Mas no "Teletransportar" é o primeiro disco em que eu escrevo letras. Isso se dá porque a minha vida artística sempre esteve muito relacionado às minhas experiências pessoais, e nesse disco eu queria dizer muitas coisas que estavam na ordem do dia pra mim. Acho que só eu poderia dizê-las. 

 

 

 

 

Como que a música entrou na sua vida?

 

A música popular sempre esteve presente na minha infância. Meu pai sempre fez questão de me apresentar os compositores brasileiros e me alertar pro valor das canções e das letras. Lembro muito bem a primeira vez que escutei "Índio", do Caetano Veloso. Eu tinha uns 7 anos de idade e isso me arrebatava e me atravessava de maneiras muito poderosas. Aos 13, eu tive minha primeira experiência musical/social. Fui convidado pelo professor de música da minha escola pra ser solista do coral. Eu tinha uma voz mais aguda do que eu tenho hoje, e ele ficava impressionado comigo cantando. A partir disso, eu nunca mais parei. Fui fazer aulas de violão com ele, e até os 19 anos estudei teoria musical a partir do violão e da voz. 

 

O canto e a canção sempre estiveram presentes, mas aos 19 anos eu conheci o piano, e foi uma paixão avassaladora. Minha cabeça explodiu. A partir disso, eu comecei a estudar loucamente o instrumento e a me dedicar como instrumentista. Pouco tempo depois, eu passei na Universidade de Música Popular Bituca. E deixei um pouco a canção e a voz de lado, fiz alguns projetos dentro da música instrumental e sou muito grato a todas as coisas que eu vivi dentro desse campo. Fiz um CD/DVD com Tulio Mourão, tive contato com grandes artistas e fiz coisas maravilhosas. Mas o desejo de fazer canção e o desejo de contar histórias através da música e da poesia nunca me abandonaram. 

 

O título - teletransportar - remete a um desejo de desaparecer, escapar, sair de onde se está. Faz sentido? Também pensei que um disco é uma possível nave de teletransporte, se você quiser que seja. Para quais lugares você acha que esse disco nos leva?

 

Quando eu compus esse tema, que é o tema principal do disco e que carrega toda o ambiente estético, de ideias e de imaginário do álbum, eu tinha uma imagem muito forte de que o raiolaser deveria vir nas cestas básicas (risos). Como o Gil e outros artistas já falaram um pouco das tecnologias e o quão imerso a gente está nos avanços tecnológicos. Eu também me via numa dicotomia muito grande, porque estamos falando de avanços tecnológicos mas ao mesmo tempo vivemos uma fase em que temos de defender coisas muito básicas, como humanidade, respeito e carinho. Uma dimensão poética da vida está sendo perdida. Enquanto eu penso em teletransportar, eu tenho que falar de coisas que já deveriam ter sido resolvidas. É muito triste, mas necessário.

O segundo é esse sentido mais literal, de às vezes querer sumir, diante do cenário que a gente está inserido (e que faz mais sentido ainda agora, com a pandemia). E sim, na falta de possibilidade ou força pra resolver as coisas, a música é um forma de teletransporte, que nos ressignifica e nos coloca em outro lugar.

 

 

O disco está diretamente ligado a uma viagem que você fez pelo Brasil, se conectando com cenários, pessoas e ideias que te impulsionam a criar. Como foi essa experiência de compor (e disso concluir um disco) a partir de experiências diretas? Justamente as experiências que agora, quarentenados que estamos, não podemos ter…

 

A fagulha do disco nasceu há mais ou menos 2 anos e meio, quando eu e minha companheira resolvemos desbravar esse nosso Brasil profundo. Foi uma escolha completamente acertada, realmente transformadora. Modificou minha maneira de ver o mundo. A primeira viagem que a gente fez foi pra Ilha do Marajó e foi a primeira canção que nasceu. A faixa "Marajó" conta a história de um pescador que a gente conheceu na ilha e que passava 11 meses no mar, pescando. E a gente tenta retratar a partida, o adeus dele da terra firme. A última viagem foi pra Amazônia, pro Lago Mamori, numa comunidade ribeirinha a 3 horas de Manaus. Uma das experiências que a gente teve lá foi caminhar para uma floresta muito, muito densa, e eu comecei a pensar que as árvores ali, embora grandes, eram muito jovens. Eu perguntei pra um homem da comunidade porque aquela mata era tão jovem. E ele me respondeu que, há 50 anos, aquilo era pasto. Na época do ciclo da borracha, eles desmataram tudo. Com a queda do negócio, eles abandonaram as terras. Elas não foram reflorestadas: a natureza é que retomou o lugar, com força total. 

 

Aquilo fez muito sentido pra mim. A gente acha que tá destruindo a natureza, mas na verdade a gente tá destruindo a nossa possibilidade de vida aqui. O ciclo do ser humano é muito pequeno dentro do ciclo da natureza. 

 

 

 

 

Musicalmente, como foi a construção do álbum (a escolha dos músicos, as sonoridades)? E quais referências musicais (discos, canções, autores) ele tem?

 

Acho que esse disco é um contraponto muito interessante ao Fronteira. No disco anterior, eu contei com uma formação muito robusta, instrumentação grande, com cordas. Foi muito arrojado e muito trabalhoso. No Teletransportar, eu queria contar a história com o mínimo de instrumentos possíveis e que ela fosse contada ao vivo. A escolha dos músicos foi essencial pra isso: Carlito Mazoni na bateria, Igor Pimenta no contrabaixo e o Conrado Goés na guitarra. Com eles, eu pude realizar um sonho: fazer bastante ensaio antes de gravar, amadurecer os arranjos e ter tempo de ouvir o que as músicas queriam dizer. Foi como se fosse um presente deles pra mim. 

 

Apesar das músicas terem nascido na minha cabeça, esse contato íntimo que a gente teve com as músicas foi deixando tudo muito coeso e muito firme. Na hora de gravar, tudo tava muito pronto e mapeado. Eu queria um estúdio que conseguisse reproduzir a ideia sonora de gravar o máximo de coisas analógicas, com microfones antigos, de fita, uma sonoridade mais escura e mais viva também. 

 

E normalmente, quando você vai gravar uma bateria, por exemplo, você grava primeiro ela limpa (sem efeitos) e depois adiciona os efeitos. Mas como a gente estava super alinhado, a gente fez isso ao vivo. O mesmo com os efeitos da guitarra, ora gravando do amplificador, ora direto em linha, dependendo do que queríamos. Tudo foi sendo lapidado ali mesmo na gravação. O resultado é muito honesto porque traz esse clima de como as coisas foram construídas. 

 

Como é lançar um disco que trata de meio ambiente, política e amor em níveis bastante profundos, em meio a um planeta tendo de lidar como uma pandemia?


A ideia de lançar em abril era emendar uma série de shows, como um no Itaú Cultural dia 12, depois, em BH, íamos fazer uma apresentação do disco com a Orquestra Sesi-Minas, do Túlio Mourão. Infelizmente foram adiados, e eu fiquei em dúvida se deveria manter o lançamento agora. Mas aí pensei no valor que a música tem na minha vida, tanto de ressignificar o meu dia a dia, como o poder que a música tem de nos conectar com um possível divino, de nos colocar em contato com uma outra dimensão, de nos teletransportar nos dois sentidos: nas transformações na ordem do dia como nos levar pra outro lugar, melhor.


Tanto no fazer quanto no ouvir, esse disco é um questionamento sobre esse ambiente político tão triste que a gente está vivendo. É uma retomada da dimensão poética da vida e do amor, do quanto a gente deve estar presente e conectado com o meio ambiente. Esse disco é também um farol pra mim, e espero que seja para as pessoas que escutem. Já que a gente tá em casa, é importante repensar a nossa maneira de viver e nos conectar com algo superior, que nos alimenta. Acho que esse álbum é um tratado sobre a micropolítica, em como podemos ser mais atuantes nas pequenas esferas e como podemos nos transformar de dentro pra fora. Ele não poderia nascer em outro momento que não esse. 

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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