FELIPE ANTUNES E NÁSTIO MOSQUITO - VISÃO NOTURNA

22/05/2020

Músicos apresentam o último ato do projeto com a inédita "Ao Pó"

 


Felipe Antunes e Nástio Mosquito se conheceram em 2018, em Lisboa. Nascia ali a parceria entre o brasileiro e o angolano, que entregam, em 2020, sua primeira cria: o projeto multidisciplinar "Visão Noturna" [Natura Musical], que se apresenta em forma de disco, livro e documentário. Na parte discográfica, trata-se de um álbum com 8 canções, cujo lançamento foi dividido em 4 atos. O último deles chega hoje às plataformas digitais trazendo todas as 7 canções publicadas anteriormente e a inédita "Ao Pó". Ouça aqui.


As letras criadas a partir do ponto de vista de um personagem (um coveirx), a sonoridade imprevisível que também conta sua própria história, a repartição do disco em atos (o que remete ao teatro) e as conexões com a literatura e a poesia fazem este "Visão Noturna" ser, antes de tudo, uma proposta narrativa. Porque aí também é possível somar à lista as possibilidades cinematográficas de cada canção, que ficam a cargo do ouvinte.


Necropolítica, violência, comodismo, debate sobre novos modelos de vida: não há nada mais 2020 que este quarteto de assuntos, e é precioso que seja por uma conexão Brasil e Angola que estes temas venham à baila, embalados pelo excesso rítmico da faixa título ou na cadência vagarosa de "A Morte Só Existe na Tua Cabeça [parte 1]". 


"Visão Noturna" tem produção musical e composições de Felipe e Nástio, arranjos criados pelos dois em colaboração com Guilherme Kastrup, Kika, Fábio Sá, Leonardo Mendes e Ricardo Prado, beats de Chilala Moco (Angola) e trombones de Allan Abbadia. Conversei com Felipe Antunes sobre "Ao Pó", a decisão de lançar o projeto em meio à pandemia do coronavírus e outros assuntos mais:




 

 

Eduardo Lemos: Vocês lançaram o disco (ou a trilogia de EPs) em meio à pandemia do coronavírus. Alguns artistas preferiram não lançar, outros estão apostando que este momento é ainda mais fértil para disseminar suas ideias. Como foi essa decisão de manter o lançamento? E como vocês receberam o retorno das pessoas após os dois primeiros atos?


Felipe Antunes: Pois é, de fato foi algo que entrou na nossa pauta… logo que a quarentena se iniciou fizemos algumas reuniões, tínhamos tudo pronto, as parcerias resolvidas, intenção dos Atos e datas pensadas e etc. Preferimos seguir por algumas razões, uma delas é que ninguém sabia (e acho que ainda, ao certo, não se sabe) os efeitos reais disso nos lançamentos e no nosso cotidiano “cultural", outra é que o que está acontecendo no país não tem, só, a ver com a pandemia, era previsível todo tipo de catástrofe e violência por parte desse governo, daí veio a pandemia, e agravou tudo. Nosso projeto fala disso. Do nosso modo de vida. Questiona a relação com a natureza, os ciclos, o tempo, o acúmulo, a segregação, o racismo, etc. Pra mim, nosso momento se trata, mais do que qualquer outra coisa, dessas discussões. Agora, em relação às respostas pros lançamentos, foram variadas, inclusive da imprensa - sendo bem, digamos, transparente contigo, recebemos, por exemplo: “Não rende” (que particularmente é das que mais gosto, porque, num país onde um dos maiores problemas é o chamado "rentismo", não render, pode ser bom), “Não me dá 3 clicks”, “Muito cabeçudo”, “Não é minha praia”, etc, ao mesmo tempo também recebemos “Me levou pra vários mundos, sensações, amei…”, “Tá uma pancada do caralho, as músicas tão batendo muito legais”, “Bicho, isso é Bacurau”; e por aí vai.



"Ao Pó", a canção que encerra o trabalho, é uma peça intensa, tanto na interpretação de voz quanto no instrumental. É um clima de ato final de uma narrativa teatral. Como vocês construíram essa canção?


Que interessante essa leitura. O poema “Ao Pó”, já existia. Eu já o havia publicado no meu álbum-livro anterior CRU, mas só em texto. Durante o processo trocamos muitas mensagens, pensamentos, referências, etc; mandei esse poema pro Nástio como referência de algo que tinha escrito anteriormente e que dizia respeito ao nosso tema de discussão. Automaticamente ele quis fazer virar música - criou, inicialmente, algo mais melódico, com uma potência longínqua de contemplação… fomos com essa ideia pra imersão/gravação. O disco foi gravado na sequência, já pensamos a coisa como em Atos lá atrás. “Ao Pó” foi, de fato, a última a ser gravada. Depois de um processo muito bonito, intenso e colaborativo. Muita gente trabalhando no melhor e mais carinhoso espírito pra que tudo fluísse de um jeito saudável. Agradecimento especial à Jackeline Stefanski e Lívia Rodrigues que foram/são extremamente importantes nisso tudo. A energia que se estabeleceu no estúdio naquele momento, pra mim, foi impressionante. Fabinho deixou só duas cordas no baixo e usou um copo pra criar texturas sonoras no toque. Foi um “mantra esfumaçado”. Não sei se dá pra enxergar essa metáfora, mas é assim que me lembro. Foram só dois takes. Kastrup, Kika, Leo, Fabinho e Násio (e Prado pilotando) estabeleceram um nível de comunicação com o texto e com a canção que poucas vezes vi acontecer num estúdio. A intenção melódica, a criação de algum tipo de linearidade que se pode entender como canção, abstraiu, o sentimento que a letra e a atmosfera traziam emergiu na máxima potência, e o resultado foi esse. Tudo ao vivo. Ainda vamos publicar imagens dessa gravação, foi um momento muito importante pro projeto.


A letra, me parece, faz reflexões sobre um certo comodismo que nos assola, e isso fica bem claro nos versos finais, com frases tão corriqueiras que mal nos damos conta de como as repetimos por uma vida inteira. O que nos tira o movimento, o que faz "o passo virar raiz"? E - aqui tentando trazer a letra pro momento brasileiro atual -, porque estamos assistindo um governo nos matar na nossa cara e sentimos que não estamos fazendo nada?


Tudo isso é Necropolítica: do capitalismo ao neoliberalismo. A gente assiste perplexo porque, quem ocupa lugares de decisão e propagação, deriva do sistema que as sustenta, então, no geral, as pessoas se confundem e se traem, chegam a defender bancos e grandes corporações. Lapsos de uma quebra sistêmica binária.


Na minha opinião, estamos reféns de nossa própria construção social. Dia após dia as coisas continuam acontecendo como sempre aconteceram, ainda assim a lógica é tentar reproduzir (ou ser parte) das mesmas práticas de sempre. Lançar um álbum, por exemplo. Como é que fazemos? Com quem falamos? Onde queremos chegar? Com quem queremos dialogar - se queremos? Por que fazemos? Pra que fazemos? Pra além do ponto de vista pessoal artístico, de desafogamento, de “botar pra fora”, de criar beleza nas nuances da vida, quem é da estrutura, se “segura" dentro dessa estrutura - do insconsciente ao consciente. É tipo um “vai que eu dependa dela”. Há uma naturalização das concessões… Enquanto não revisarmos, de verdade, conceitos mínimos, básicos, da construção social apodrecida em que vivemos, vamos nos digladiar na base sem tocar no real problema do "topo". Esse papo do “precisamos agora nos unir” é muito relativo e é o caminho mais fácil pra quem já tem mínimas estruturas. Onde estamos/estávamos todxs nós durante as concessões? Procurando saber o que “rende” e o que “não rende”? Não é hora de falar disso? Quando foi? Quando será? Pra mim há uma linha nevrálgica fundamental em tudo isso: enquanto não conseguirmos instaurar uma refundação cultural no país, repetiremos, ciclicamente, como é cíclico “Ao Pó”, a manutenção das velhas estruturas. Precisamos falar, relembrar, ensinar, estudar, responsabilizar, reparar, no mínimo, do ponto de vista histórico, os genocídios indígena, negro(a) - desde a escravidão -, da ditadura, e do governo atual pelas ações criminosas diárias nessa política da morte - seja pela pandemia, seja pelas ações policiais e milicianas cotidianas entranhadas no estado.


Divido aqui o poema completo de “Ao Pó”: 



ao pó

 

pudera lidar com o tempo

pudera, quisera, fizera

ainda que o andar fosse de espera

e da espera sobrasse o momento

 

são tantos os diagnósticos imóveis

que o movimento também se acomoda

calcifica-se em tamanha patologia

que o passo vira raiz

 

são tantos os filtros na imagem

que a fotografia também se acomoda

finca faca ao cair dos olhos

aponta coisa alguma ao cair da tarde

 

tanto assim que o entardecer é o mesmo

e ninguém nunca está lá

quando estamos, abreviamos

apressamos, optamos por filtrar

 

pudera lidar com o tempo

pudera, quisera, fizera

ainda que o andar fosse de espera

e da espera sobrasse o lamento

 

pois assim são as acomodações

também se acomodam

a vida elástica faz a dor do peito se acomodar

acomoda também os juros no banco

a conta vai sempre corrente

a massa vai sempre corrida

 

não é tão bom — mas acontece

não gostaria — mas é uma fase

seria melhor — mas não precisa

 

são tantos os pormenores

que a dinastia também se acomoda

ou, de alguma forma, se veste, se molda

se recupera e fagocita — fogocita

 

são tantos os fórceps

que as cabeças também se acomodam

espremidas da rebeldia

se exaurem e se calam da vida

 

o Cálcio da espera

o Ócio do afoito

o ciclo da Terra

a força do Coito

a verve que berra

a farsa do Tácito

o ferro da Serra

as vestes do Flácido

 

em únicos-mesmos ciclos tudo se refaz:

Cinza-Rocha-Mar-Areia-Silício-Vidro-Copo-Corpo-Cinza-Rocha-Mar-Areia-Silício-Vidro-Copo-Corpo-Cinza-Rocha-Mar-Areia-Silício-Vidro-Copo-Corpo-Cinza

 

no raso do mar, somos o vidro

no fundo, somos o pó de nós mesmos





Quais são os próximos passos do projeto, após o lançamento dos 4 atos?


O disco inteiro, com trilha sonora que permeia as canções, está saindo hoje. Esse é um passo (cíclico) muito importante pra nós. Desejo muito que a navegação abra possibilidades de comunicação transcendentais para além de nossos cais a quem escuta. Também, em breve, sairão um pequeno romance, que conversa com as letras das canções, num livro, e um documentário, de Camila Pastorelli, do processo de gravação. Pra recuperar sua segunda questão, falando dos Atos, assim como no Teatro, queremos que esse álbum seja dinâmico, vivo, e que a gente possa estar com ele “Em Cartaz”. Tenho certeza que ele - e o que derivou/derivará dele - encontrará formas e atos para estabelecer diferentes temporadas.

 

***

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

Outras matérias e entrevistas