MORRIS

04/06/2020

Morris trata de identidade no ijexá-pop "Longe da Árvore" - assista ao clipe

 

 

 

Morris Picciotto não podia imaginar, mas quando saiu da exposição do artista chinês Ai Weiwei, na Oca do Parque Ibirapuera, em 2018, saiu de lá com a gênese de um novo disco na cabeça. Também não lhe passava pelas ideias reunir neste álbum um time de músicos que ele admirava há tempos - Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Felipe Roseno - e outros que ele ainda não conhecia - Allen Alencar, Igor Caracas. 


Talvez nem lhe ocorresse convidar a cantora e compositora Ju Perdigão para musicar uma letra de sua autoria, mas ele acatou a sugestão do diretor musical do disco, Rômulo Froes, e assim nasceu "Longe da Árvore", canção cujo clipe ele lança com exclusividade pelo Azoofa (assista abaixo), e que estará nas plataformas digitais a partir desta sexta, 05. 


A música faz parte do álbum "Homem Mulher Cavalo Cobra", disco com 13 faixas que sai pela YB Music. Este é o segundo trabalho autoral de Morris - "5", sua estreia fonográfica, é de 2009, e neste intervalo ele acabou se dedicando integralmente às trilhas sonoras para teatro. 


"Longe da Árvore" foi inspirada pela leitura que Morris fez da obra homônima do jornalista americano Andrew Solomon, que acompanhou por dez anos famílias cujos filhos têm diferenças importantes em relação aos pais. Faz parte do núcleo “identidade” do disco (os outros são “mitologia”, “pessoas" e "morte") e propõe uma metáfora para o afastamento do indivíduo de seu tronco familiar na busca de sua identidade, uma experiência que o próprio Morris vivenciou. 

 

 


 

Seus planos iniciais pré pandemia - lançar dois singles e já partir para os shows de lançamento, que aconteceriam agora em junho - obviamente mudaram, mas a vontade de apresentar o disco ao mundo permaneceu. "Decidi lançar as canções do disco separadas. Cada canção que a gente lança é uma PEDRA. A ideia da PEDRA surgiu dos desenhos que meu filho fez para cada um dos temas em restos de parede, tijolos e concreto recolhidos pela cidade. Algo como uma pintura rupestre nos escombros urbanos", conta ele. 


Conversei com Morris sobre "Longe da Árvore" e outros temas: 

 


 

 

Você decidiu lançar seu novo disco mesmo sem ter horizonte para fazer shows. Como foi que rolou essa decisão? 


O disco foi gravado entre novembro de 2019 e fevereiro deste ano. Já tínhamos datas em maio, na Casa de Francisca, e lançamento oficial no SESC 24 de Maio, em junho. Com o adiamento dos shows, decidimos seguir de maneira diferente. Ao invés de apresentar dois singles e logo o álbum completo, vamos soltar a cada 15 dias uma canção. Tem um lado positivo que é alongar a interação das músicas nas redes, ajudando a firmar minha volta à canção autoral dez anos depois do “5”, meu primeiro disco. Quem está acompanhando meus movimentos, deve ter visto que chamamos os lançamentos de PEDRA. Trata-se de uma imagem para cada canção que foi desenhada em escombros urbanos (tijolo, parede, restos de calçada, paralelepípedos) pelo jovem artista Alê Picciotto, meu filho. E essa PEDRA traz consigo a história da canção, com sua inspiração, clipe, imagens e o que mais for aparecendo ao longo dessa “jornada”. Acho que até meados de agosto completamos o álbum. E quando voltar os shows, a gente faz.



"Longe da Árvore" é uma parceria sua com a Ju Perdigão. Como se deu esse encontro de vocês nesta canção?


Conheço a ju desde 2010, antes dela vir morar em Sampa. Os discos dela são lindos, todos. No Folhuda, fez melodias espetaculares para poemas prontos. E, no processo de composição das canções, Rômulo achou que eu deveria mandar uma letra para ela. No show de lançamento do Folhuda, sentado, esperando começar, veio a letra inteira numa torrente. É inspirada no livro homônimo do jornalista americano Andrew Solomon, que acompanhou por dez anos famílias cujos filhos têm diferenças importantes em relação aos pais. Aí veio uma música sensacional, um ijexá pop, com uma harmonia sofisticadamente mineira.


O clipe dirigido pelo Hank Nieman tem uma estética super peculiar. Como foi a criação do vídeo?


Na PEDRA 01, que abriga a canção e o clipe OnÇa-Çá, parceria com o Clima, a pandemia travou a finalização do  clipe. Eu tinha combinado com o Luan Cardoso, diretor dos vídeos do disco, de gravar minhas imagens cantando bem na semana em que começou a quarentena. Diante do problema, ia fazer uma tomada caseira com o celular mesmo, mas, no final, tivemos a sorte de terem sido gravadas pelo multi artista holandês Henk, que é meu vizinho aqui no sítio. Tudo isso respeitando o isolamento. Assim, decidimos estender a parceria e fazer juntos o segundo clipe. O Henk encontrou uma árvore linda e solitária num pasto e queria pegar uma tomada de longe, comigo me afastando da árvore, visto assim do horizonte. Gravadas, as imagens foram tratadas graficamente, tipo teatro de sombras, deixando um espaço preto para tudo acontecer enquanto o caminhante atravessa a tela no tempo da canção. Ficou tão legal o “teatro de sombras” que o resto das imagens também foram adaptadas graficamente. E tudo em preto e branco.


Me parece que "Longe da Árvore" reflete sobre as diferenças - nascemos de um jeito, mas nos transformamos com o passar do tempo. É um tema bastante contemporâneo, já que vivemos, no Brasil e em outros países, sob uma ameaça fascista, que pressupõe justamente uma normatização de comportamento, no pior estilo "meninos vestem azul" da ministra Damares. De que maneira este assunto te afeta e como você enxerga essa ameaça?


Eu venho de uma família judaica tradicional e me afastei do “tronco principal” para seguir meu caminho. Durante muito tempo foi difícil, a gente carrega um sentimento de errado, doente, uma culpa por ser diferente deles. Assim também é na sociedade. Acho que estamos melhor do que há 35 anos atrás, quando eu vivi isso, ainda que sutilmente, se comparado aos LGBTQIs, indígenas, pessoas com deficiência, negros, refugiados, etc. E esse movimento protofascista que vivemos hoje parece uma reação ultraconservadora a esses “pequenos” avanços. A canção fala disso, mas também de uma volta ao mar, que é de onde viemos, segundo a teoria da evolução. Uma volta para algo essencial, que também revela quem somos e nos ajuda a encontrar nosso caminho. Mas eu concordo com você que a canção também fala dessa transformação que vivemos com o tempo. A poesia tem essa beleza de vários entendimentos.

 

 


 

O disco tem direção artística do Romulo Fróes e um time de músicos camisa 10 de seleção brasileira. Como se deu essa escolha por trabalhar com eles e como foi o processo com o Romulo, Rodrigo, Cabral, Allen e tantos outros que estão na ficha técnica?


Nossa, essa resposta dá um livro. Vou tentar resumir e não esquecer nada. Fora o guitarrista Allen Alencar e o baterista Igor Caracas, todos artistas da ficha técnica, de alguma maneira, já tinham cruzado meu caminho. Veja que eu já não sou tão jovem. Eu estava afastado da canção autoral há 10 anos. Nesse tempo, me dediquei a fazer trilhas para teatro, mas nunca deixei de compor canções. Em 2018, o Maurício Pereira abriu seu disco, “Outono No Sudeste”, com uma parceria nossa baseada num conto do Murilo Rubião (procurem ler). Isso acendeu um desejo de voltar a gravar. Nesse mesmo ano, visitando a retrospectiva do artista chinês Ai Weiwei, compus uma série de canções e decidi mostrar para o Rômulo. No fim da tarde iniciamos o disco e ele pediu para deixarmos a inspiração mais livre, as idéias aparecerem no processo, naturalmente. 


Ele propôs o Rodrigo Campos (havíamos sido parceiros no início dos 2000) e o Allen para fazermos um trio de cordas e estruturar os arranjos das canções. Daí, tivemos a sorte da volta do Cabral de Berlim exatamente naquele período. O Igor foi uma surpresa também. Chegou chegando manso, mas com uma criatividade incrível na batera. O Felipe Roseno era amigo de boteco e não precisamos falar do seu talento. Parecia um sonho. De repente, esses músicos que fizeram o que eu mais admirava e me identificava na canção brasileira: Passo Torto, Elza Soares, os trabalhos solo, etc., estavam comigo. E deu muito certo. E teve mais. Juçara Marçal, que trabalhou comigo numa peça, interpreta uma parceria com a  letrista Alice Coutinho, que trabalhou na minha produtora vários anos. Benjamim Taubkin, músico e amigo que me fez ser músico. João Antunes e Yvo Ursini, parceiros de trilhas sonoras, o baixista Marcos Paiva, amigo arranjador. O grande compositor Clima veio com Romulo e a Ju Perdigão, além da PEDRA do dia, canta em duo com o Pereira que também compôs para o disco. E o César Lacerda fez uma melodia linda e emprestou a voz também. O Karybáya trouxe um pouco da arte e da mitologia indígena. Enfim, devo ter esquecido alguma coisa nesta adjetivadíssima ficha técnica.

 

 


 

Quais referências, musicais ou não, você enxerga no álbum? Que diálogo você vê entre a sua obra e outras obras?

 

Acho que o principal diálogo que eu enxergo está na resposta acima, com esse povo todo. Cada um deles traz alguma referência de som ou poesia que me interessa. Nesse sentido, estou 100% identificado com esse trabalho. Vejo e ouço nele exatamente aquilo que eu queria fazer, mesmo com tudo que foi pintando e me surpreendendo no rolê. Eu diria que é um trabalho brasileiro contemporâneo, mas todo baseado na tradição. Ou melhor, nas tradições.

 


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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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