QUESTIONÁRIO DA QUARENTENA #3

15/06/2020

Clarice Falcão queria ter tocado no Lolla, sente falta das sobrinhas e zero falta de reuniões. No isolamento, ela também descobriu que não é "só a cabeça"

(Clarice Falcão no clipe de "Só + 6" - Foto: Chico Castro)

 

 

Se a gente não soubesse, nem daria para dizer que Clarice Falcão está em quarentena. A cantora lançou no final de março o EP “Eu Me Lembro”, algo como uma volta ao passado com versões de cinco canções de discos anteriores. Paralelo a isso, lançou clipes de faixas do seu último álbum, “Tem Conserto”(2019), e uma música inédita, "After do fim do mundo", celebrada parceria com Linn da Quebrada. Embora o período esteja sendo produtivo, ela não esconde pequenas tristezas impostas pela pandemia: não tocar no Lollapalooza e nem levar a turnê para a Europa.

 

"Justamente quando a pandemia começou, eu tinha planejado lançar muita coisa, então tinha muita coisa encaminhada. Algumas eu consegui lançar - o EP, o single , o clipe do ‘Dia D’ e o clipe de ‘Só+6’. Mas, por exemplo, alguns shows, o próprio Lollapalooza, e eu ia fazer pela primeira vez uma turnê pela Europa. Pequenininha, só com o Lucas (de Paiva), e o Rafa (produtor), mas infelizmente não rolou", conta ela em entrevista ao Azoofa.

 

Se adaptando à situação, ela se diz "ansiosa" para produzir mais clipes ainda que a distância, bem diferente de como estava acostumada. Quer dizer, mais ou menos. "Gosto muito de fazer clipe, eu gosto muito de história, né? A minha família é de teatro, cinema, então eu adoro brincar com isso, mesmo caseiro, pra mim é uma situação normal", conta ela.

 

A primeira experiência à distância rolou com o vídeo de "After do fim do mundo". "Essa ideia de fazer os avatares e a gente poder estar junto no clipe de uma forma digital, meio que representando o momento que a gente tá vivendo, tinha tudo a ver com a música", conta.

 

 

 

 

Quando a gente relembra o último disco da cantora, "Tem Conserto", somos levados a canções sobre depressão, ansiedade, enfim, questões que mexem com nossa cabeça e emoções. No momento que estamos hoje, vendo essas questões se agravarem, ela reforça a importância de falarmos sobre saúde mental e brinca que parece ter previsto como ela mesma se sentiria hoje.

 

"Era uma coisa que já foi muito estigmatizada e tratada como frescura, e eu mesma estou passando por coisas que às vezes eu penso no ‘Tem Conserto’ e falo, ‘caramba, acho que previ me sentir assim’, porque eu estou sentindo exatamente como falei que ia me sentir no disco. Estou me identificando com a minha própria obra (risos)".

 

 

Enquanto pensa no próximo clipe e espera o momento de poder tocar os shows – “estou muito preocupada com esse nosso meio, mas a prioridade é a saúde das pessoas, é pensar na vida”, diz ela -, Clarice respondeu ao nosso Questionário da Quarentena, perguntas sobre esses dias de isolamento social.

 

 

Você lembra o que fez no último dia antes do seu isolamento começar?

 

Na verdade, como eu trabalho em casa, tanto escrevendo, como compondo, foi meio acontecendo aos poucos. Não é que eu estava saindo de casa e de repente me tranquei. Quando eu vi, já tinha começado o lockdown e já estava dentro de casa mesmo. Se eu soubesse, teria saído mais antes (risos).

 

 

Você já pensou em como/onde gostaria que fosse o seu primeiro show com público?

 

Eu fiquei muito triste de não poder fazer o show no Lollapalooza. É um festival que sempre admirei e estava muito empolgada para tocar lá, então gostaria muito de poder tocar no Lolla.

 

 

(Foto: Chico Castro)

 

 

Se soubesse que ficaria tanto tempo e casa, você...

 

Nossa, eu não teria recusado nenhum convite pra sair - "ah não, porque estou cansada, porque estou sem saco"... Não, eu teria ido pra tudo!

 

 

O que você descobriu sobre você nesses dias de isolamento social?

 

Eu descobri o quanto me faz falta movimentar o meu corpo. Eu sempre fui uma pessoa que ignorou meu corpo, achava que minha cabeça é que é a minha parada, mas eu tenho sentido muita falta de andar, de caminhar pela cidade, pelo meu bairro... Isso tem me feito falta, então, eu descobri que sou mais que minha cabeça e tenho um corpo (risos).

 

 

O que mais te irritou nessa quarentena?

 

Nosso presidente, com certeza.

 

 

Se tivesse um vale-abraço-imune agora com quem você usaria?

 

Eu usaria com as minhas sobrinhas. Uma tá com 10 meses, a outra está com 11 meses e... ai, eu não estou vendo elas crescerem e estou muito triste.

 

 

Qual foi o seu maior medo até agora?

 

Acho que foi quando minha mãe começou a apresentar alguns sintomas [de Covid-19] e achei que ela podia ter pego, foi muito assustador pra mim. Mas, graças a Deus, não era nada.

 

 

 

 

 

 

Nesse isolamento você percebeu que não pode viver sem...

 

Eu percebi que não posso viver sem meu cachorrinho! Ele está me fazendo muita companhia, está sendo muito companheiro. Eu não sei o que estaria fazendo se não fosse ele.

 

 

E que pode viver sem...

 

Reunião! Nossa, posso viver sem reunião totalmente. Manda um email, faz uma coisa via online... É ótimo.

 

 

Quando a gente definir a volta a esse novo mundo, como você acha que estaremos? Espera grandes mudanças ou não?

 

Eu espero grandes mudanças e espero que haja grandes mudanças. Espero no sentido de que acho que vai ter e no sentido de que torço para que tenha, porque a gente não estava num lugar muito bom quando isso começou. Espero que isso pelo menos leve a gente pra um lugar melhor.

 

 

Do que você mais vai se lembrar sobre a pandemia (até agora)?

 

Eu vou me lembrar do tempo que passei com a minha família - meu namorado e meu cachorrinho. No meio de tanta coisa ruim, pelo menos eu tenho esse privilégio de poder estar com duas criaturas maravilhosas comigo e estamos segurando a barra juntos, e isso está me fazendo me sentir menos sozinha.

 

 

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Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem.

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