Morris e Rodrigo Campos

06/08/2020

Amigos e compositores conversam sobre "Dois Irmãos", novo single de Morris

Linhas retas no infinito, o tempo não linear, uma cerveja e uma canção. É envolto em simbolismos e forte carga afetiva que o cantor e compositor Morris lança nesta sexta-feira, 7, seu novo single/clipe "Dois Irmãos", com exclusividade pelo Azoofa.

 

 

 

 

Desde maio, Morris já apresentou 8 canções (ou "pedras", como ele chama) que integram seu novo álbum, "Homem Mulher Cavalo Cobra" (Yb Music). 


O clipe de "Dois Irmãos" é dirigido por Luan Cardoso, que conheceu Morris através de Rômulo Froes, produtor do disco. O vídeo mescla imagens de estúdio com intervenções realizadas por Alê Picciotto, filho de Morris, que também contracena com o pai. "Em "Dois Irmãos", a gente foi buscar uma coisa mais afetuosa, da dualidade, uma coisa solar mas também as complexidades. E tem uma tensão, essa tensão que a gente vive diariamente", conta Luan, que, além de dirigir outros clipes do projeto, está preparando um documentário sobre o processo de gravação do álbum. 


"Dois Irmãos", parceria de Morris com Rodrigo Campos, é também símbolo do reencontro entre os dois compositores, que no ínicio dos anos 2000 formaram o grupo Urbanda, junto com Luisa Maita, Marcos Paiva e Douglas Alonso. 

 

 

Fotos: Luan Cardoso

 

 

Fiz um convite aos dois: que eles trocassem uma ideia sobre o processo de criação da música e do próprio álbum - Rodrigo integra a banda que gravou o disco, tocando guitarra e cavaquinho, ao lado de Allen Alencar, Igor Caracas, Marcelo Cabral e Felipe Roseno. 


Porém, como há de ser quando dois irmãos se encontram, o papo vai muito além. Eles começam a conversa tentando localizar o ano em que se conheceram (2001) e o local (um churrasco em São Mateus)...


 

Rodrigo Campos: aquele dia você pegou o violão e tocou, não foi?


Morris: toquei um pouco… e devo ter me sentido diminuído, vendo vocês de São Mateus.


R: nada, você já tava com as levadinhas do João Gilberto todas certinhas.


M: foi o que me salvou!


R: ali você já tinha banda com a Luisa Maita?


M: acho que não. eu fazia uns shows com a Luisa, de boteco. a gente era vizinho. eu ia treinando o repertório e a Luisa ia treinando o canto dela. até que a gente conheceu você, você se juntou a nós e formamos um triozinho...aí veio o Douglas Alonso, Marcos Paiva. nessa época nosso nome era incrível: Minibanda


R: Companhia Minibanda!


M: É. E que depois evoluiu pra Urbanda. Nessa época você já era compositor né?


R: É, eu tinha umas músicas com o Vitor (do Quinteto em Preto & Branco) e já tinha tocando nuns grupos de samba que eu botava minhas músicas. Mas nunca tinha gravado. Com a Urbanda foi a primeira vez que gravei. 


M: Foi aí que nós dois começamos a compor juntos. Eu lembro que a gente sentava em dois violões e brincava de fazer uma coisa intrincada…


R: É verdade.


M: E isso tá completamente no seu DNA. Você foi fazer isso depois com o Kiko (Dinucci), de maneira muito aprofundada. E agora você está fazendo isso com o Allen (Alencar) em alguns projetos. É curioso esse caminho. 


R: Total! Tinha uma coisa de eu já fazer uns voicezinhos pelos harpejos, dos acordes… Eu lembro que eu fazia um cavaquinho na Urbanda que depois fui fazer no Passo Torto, usando pedais, mas começou na Urbanda um jeito de tocar que eu continuaria fazendo. Essa coisa do cavaquinho mais harpejado, não só com levadas, um fraseado mais modal do que tonal… 


M: Eu sinto que a gente tem uma coisa de querer fazer um som contemporâneo, ainda que bastante calcado na tradição… Uma coisa que me encanta nessa música paulista de vanguarda dos últimos 10, 15 anos é como tem muita tradição, invenção e virtuosismo. Nesse tempo que eu fiquei afastado da música autoral, eu fiquei escutando muita música, meu jeito de estudar é escutando. Não sou muito o cara que fica tirando as músicas. Eu ouço e aí eu vou fazer meu som.

 

 


 

R: Vai te influenciar de algum jeito né?


M: É. Esse novo toque que você foi fazendo, tenho a impressão que isso também foi pintando na sua poesia. Não sei se rolou ao mesmo tempo, talvez a poesia tenha aparecido um pouco depois. 


R: É uma busca… sempre busquei, de algum jeito, a concisão, o minimalismo. Acho que isso também vem nas minhas letras, que normalmente são curtas e não tem uma explicação, elas acabam no ar… Às vezes são imagens inconscientes que coloco do jeito que me apareceram. "Dois Irmãos" é muito isso: é como se fosse um sonho, sem lapidar muito, sem interpretar muito. Joga a interpretação pra quem tá escutando o teu som. Acho que ela tem muito a ver com o momento. [Cita a letra] "O gesto da noite demorará?"


M: [continua] "Como abrandar essa visão? O tempo de vida demonstrará / Como acalmar o coração?". 


R: Buscando algum alento dentro desse momento, dessa escuridão. E os dois irmãos que escolhem caminhos diferentes, que no fundo é o mesmo, mas há uma ilusão de que você pode ter ou não um buraco no chão. Todo mundo tem um buraco no chão. Isso é uma coisa do Castañeda, "a morte é a melhor conselheira", porque ela está sempre andando do seu lado. É real, quando você tem certeza da finitude, você tem um outro olhar pra vida né? A nossa arrogância vem muito dessa inconsciência de pensar que vamos durar pra sempre.


M: Os budistas falam que a vida e a morte são passos de uma mesma dança. 


R: É…


M: A gente ficou uns 15 anos afastado, né? E aí, nesse meu reencontro com o Rômulo Froes, ele te chamou. Aliás, ele te chama de meia-esquerda. O Rômulo é um cara meio anacrônico, não existe mais meia esquerda no futebol, hahaha!


R: Total! Hahaha


M: E olha que o Cacá [engenheiro de som do estúdio YB Music] te colocou na direita em todas as mixagens! 


R: Hahaha...


M: Mas esse nosso reencontro trouxe essa letra, né? Sempre quando eu canto a letra - e quando eu vejo o desenho que o Alê fez pra pedra -, eu sempre lembro de uma explicação matemática do colégio e que sempre me intrigou muito: "o que são retas parelelas? a definição é: duas retas paralelas vão se encontrar no infinito". Pra mim, essa música tem esse lugar. E o fato da gente ter se reencontrado no show da Juliana Perdigão, e ter ido tomar aquela cerveja aquela noite… escrevi a letra de "Longe de Árvore" naquele show, e depois tocamos ela juntos, do jeito que veio… 


R: É verdade. É linda a letra dessa música, ela também tem essa ideia meio budista, talvez? Da conexão entre as coisas…


M: E o retorno, né? Um certo retorno, "a gente vai voltar pro mar, vai ser peixe no Recife de novo". 


R: É bonito pra caralho isso. E eu gostei de você ter colocado essa nossa parceria no bloco mitológico. Sinto que meu trabalho tem muito simbolismo, e essa coisa do símbolo tá muito ligada à mitologia. A letra de "Dois Irmãos" é toda de imagens e símbolos. 


M: É, e essa separação de um irmão que vai seguir uma trilha e o outro vai pro mar, até isso tem uma coisa interessante… que me lembra essa coisa do Brasil, dividido entre quem tem uma vida virada pro litoral, e outra pro interior. 


R: Total. Aliás, como rolou essa ideia dos blocos? 


M: Pois é, tem o bloco da morte, o bloco das pessoas, o bloco da mitologia e o bloco da identidade. Sinto que estão entrelaçados, tanto que, te ouvindo falar agora, "Dois Irmãos" poderia estar no bloco da morte. E vejo isso no som também: conforme vocês foram gravando, vocês também iam se constituindo como linhas individuais dentro de um todo amarrado. Isso tem a ver com todo o trabalho do Clube da Encruza (união de Marcelo Cabral, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Rômulo Froes e Thiago França). 


R: Tem uma maneira ali de arranjar… Essa maneira de arranjar mais coletiva acaba se influenciando muito do cerne, que é o seu violão. Do jeito que a gente fez, a gente foi entrando dentro do seu violão né? 

 

 


 

M: Exatamente.


R: É muito interessante esse processo.


M: A gente tentou tirar o violão pra ver o que acontecia. Ela não existe. É igual tirar toda a fundação de uma casa. A música ficou flutuando no ar sem nada. 


R: Se a gente tivesse feito sem o violão, talvez parasse em pé. Mas a gente fez já intrincado com seu violão. Aí, tirar é tirar a estrutura básica. Mas foi tudo muito divertido, essa coisa de criar coletivamente é uma coisa do teatro, né?, dos ensaios, de estar junto. É uma trupe.


M: Eu falei pro Rômulo: o processo de gravação é longo, em termos de duração, mas eu não senti isso. Até falei pra ele: você lembra bastante diretor de teatro, essa coisa de olhar diversos ângulos de um projeto, desde o release até uma foto, um arranjo, uma mixagem… 


R: Essa visão geral que tem referência de todos os assuntos, mas não se prende a nenhum deles né? É alguém mantendo o equilíbrio entre eles.


M: Totalmente. Pô, queria te agradecer. Foi muito bom esse nosso reencontro.


R: Pô, foda demais! É muito legal que, quando a gente começou a conviver de novo, parecia que não tinha nenhum dia de intervalo, né? É como se você estivesse sempre aqui, nunca tivesse saído de perto.


M: Isso de alguma maneira justifica a letra que você escreveu. E até a melodia, que não é linear. A gente é muito ligado na linha do tempo. Eu nunca estudei, mas me contam que existem outros tempos: o tempo de Bergson, os tempos quânticos, o tempo psicológico… Essa linha reta é uma categorização que a gente inventou pra… destruir a natureza, talvez. Sei lá. [risos]


R: Pra ter uma justificativa plausível [risos]. Mas, pô, muito legal. Tenho essa sensação de que a gente sempre esteve perto, que não mudou nada. Porque às vezes as pessoas se afastam e se reencontram e não dá liga, né?


M: É… e pra mim foi legal lá na cerveja, sabe? Quando a gente tomou aquela cerveja, foi curioso. Nós dois estávamos passando por momentos um pouco difíceis e fomos falando sobre isso, família, amor, filhos. Foi muito doido. A última coisa sobre a qual falamos foi de guitarra, cavaquinho… 


R: É verdade. E todo o processo de gravar seu disco, parecia que a Urbanda tinha acabado na semana anterior. Tomara que a gente consiga fazer uns shows logo… pra gente tomar uma cerveja depois. 

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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