LUME em busca do futuro

12/10/2020

No Dia das Crianças, duo fala sobre maternidade, paternidade e música

 

"Ser dois, ser dez e ainda ser um". O verso de "Dos Margaritas", canção de Herbert Vianna gravada pelos Paralamas em 1994, passa pela minha mente enquanto troco áudios com Luana Baptista e Gui Augusto, o duo que forma o LUME. Eles, que também são um casal, tem várias novidades pra contar: em 2019 deram luz ao menino Ariel, primeiro filho da dupla. Já não moram em São Paulo, onde viveram os últimos anos. E acabam de lançar uma música nova. 


Como se dá quando as forças da natureza atingem nossas vidas, a chegada de um novo ser trouxe transformações enormes à rotina pessoal e profissional de Luana e Gui, ambos cantores, compositores e instrumentistas. Surgiram questionamentos. Colheram novas definições sobre o que é essencial. E tem a música - dá pra criar música enquanto se cria um filho? Sem falar da outra força da natureza que invandiu nossos planos, a pandemia...


 

Em agosto deste ano, o LUME lançou Menino, sua primeira faixa depois de uma bela estreia em disco ("LUME", de 2018). Conversei com eles sobre como é ser pai e mãe neste momento, como é lançar música nova neste momento, como é… ser dois, ser dez e ser um neste momento. E, claro, falamos de música.

 

Confira:

 

 


 

Eduardo Lemos: O single "Menino" chega 2 anos e meio depois do primeiro disco de vocês. Como foi esse período entre o álbum e esta nova canção?


Luana: Nesses dois anos e pouco, passamos por vários momentos. Em 2018, a gente fez uma temporada de lançamentos, fomos pro Uruguai, pra Argentina e circulamos bastante em São Paulo. Depois, veio a gestação e o ritmo começou a diminuir um pouco. 


Gui: Nosso último show foi em dezembro, no Sesc Santana. 


Luana: Desde o nascimento do Ariel (que fez um ano no dia 13/08), mergulhamos na experiência de paternidade e maternidade. Ao mesmo tempo, eu sinto que essas vivências de outros âmbitos da vida mexeram com nossos projetos profissionais. O Gui está com o projeto do seu disco solo, e está trabalhando no novo álbum do Flávio Tris. Eu também estou começando a produzir meu solo e estou com outros projetos com a Lenna Bahule. 


Gui: Esse momento de imersão com Ariel, de cuidado e de curtir, faz a gente refletir sobre a própria música. Antes do mercado da música, ela já existia nas comunidades, nos rituais, no ninar, permeando toda a nossa vida. A gente canta para o Ariel dormir todas as noites, temos gravado alguns sons dele nessa fase, e queremos ver como isso pode gerar experimentações sonoras... Enfim, isso fez a gente se indagar sobre a essência da própria música, e por consequência, sobre o que queremos para o Lume. 


Luana: Sinto que a nossa pausa foi mais no ritmo de produção que estávamos acostumados. Continuamos nos alimentando e crescendo musicalmente, mas de outras formas.

 

 


 

Como nasceu a canção "Menino"? Ela tem uma sonoridade diferente da que vocês traziam no primeiro disco… 

 

Gui: Essa música nasceu um pouco depois da gravação do disco, junto com uma safra de músicas que acompanharam a temporada de shows de lançamento, entrando no nosso repertório algumas vezes. Um dia, quando morávamos na casa Lumieiro (no bairro da Lapa, em São Paulo), estávamos reunidos com alguns amigos e começamos a brincar com as palavras. Peguei o violão e comecei a criar em cima disso. Na época, a gente não imaginava que teria filho; queríamos, mas não sabíamos quando. 


Luana: Depois de tudo que a gente viveu, estamos apontando para novas sonoridades. Gostamos muito de música instrumental e trilhas sonoras de filmes, e temos pensado muito em ir pra novos formatos, sair um pouco da canção. Num show da Ceumar, nós conhecemos o Raul Misturada, ficamos conversando com ele e rolou uma energia legal. Depois, ele escreveu pra gente dizendo que tinha escutado nosso disco e queria produzir algo nosso. 


Gui: E comentamos com ele dessa nossa vontade de soar além da canção. Ele pediu algumas músicas inéditas, a gente mandou e ele escolheu "Menino". Aí, fomos construindo a música durante a quarentena. Ele ajudou nos arranjos, nas vozes, criou as cordas… 


Luana: E foi curioso que ele escolheu justamente uma música que se chamava "Menino". A gente sabia que todo mundo ia ligar uma coisa à outra, mas não foi proposital. 


Gui: Essa música tem um aspecto de luz e de sombra. E ter um filho é uma beleza e ao mesmo tempo um desafio diário. A gente sentiu muita afinidade com esta escolha. 


Luana: Nosso plano com o Raul era gravar tudo presencial. Só que aí veio a pandemia. 


Gui: No começo, ficamos preocupados de gravar à distância. Mas foi muito interessante registrar as coisas em casa, com os nossos equipamentos, e depois ver isso passar pelos pré-amplificadores analógicos do Raul. A música ainda foi pro Elísio Freitas, que mixou lá do Rio de Janeiro. Utilizamos o que há de melhor na distância, digamos assim. 


Luana: Esta talvez seja uma das partes positivas deste momento que estamos vivendo, perceber que podemos gravar com alguém que está no Japão, se a gente quiser.

 

 


 

Como está sendo a experiência de ter um filho, com todos os desafios disso, e ainda pensar na própria carreira?


Gui: Ter um filho já abre todo um portal de questionamentos sobre o que nos move e o que realmente nos alimenta - e também sobre o que queremos seguir alimentando. A pandemia e a quarentena foram continuações do nosso puerpério  - puerpério é a palavra que denomina o momento pós-parto de um casal. Acho que fomos até ousados de lançar música neste período. É muito difícil tocar a carreira quando os dois estão mergulhados e dividindo os cuidados. Eu queria participar dessa primeira infância integralmente, e claro que isso faz a gente deixar outras coisas de lado. O tempo sumiu. E nós músicos precisamos de horas de concentração e de silêncio, e com um bebê é muito difícil. No entanto, a gente conseguiu lançar. Foi muito gratificante. 


Luana: Pra mim, tem sido um processo de sentir muito a solidão e de viver um processo interno de "quem é você agora?". Eu era uma mulher antes do Ariel nascer, e sou outra agora. Estou começando a olhar pra mim e me perguntar o que quero fazer como pessoa e como artista. Até aqui, são noites sem dormir e sem espaço para criar, gravar, compor, estudar, cantar. A gente se revezou muito para poder gravar o single. Por exemplo: o Gui ficava com o Ariel enquanto eu gravava voz dentro do armário, depois eu dava peito pra ele pro Gui subir e gravar a parte dele. Não deu muito tempo de fazer outros takes. E até por isso decidimos lançar um single, e não um EP ou um disco. 

 

 


 

Gui: Foi legal porque, de certa forma, é um desafio que a gente se colocou. Sabíamos que ia ser difícil, mas também sabíamos que isso ia nos mover e nos fazer achar alguma brecha. 


Luana: É, foi uma aventura! E estamos fazendo o que podemos para divulgar. Um aprendizado da maternidade e paternidade é aceitar as coisas como elas são. Fazer o nosso melhor, mas não criar expectativas gigantes. Um dia de cada vez e com carinho. E as coisas vão!


Obviamente que os trabalhadores da cultura foram muito afetados pela crise do coronavírus, especialmente no aspecto financeiro. Por outro lado, vejo alguns amigos músicos aproveitando a força deste momento para tomar decisões que estavam guardadas na gaveta. Como a pandemia afetou vocês?


Luana: Sou uruguaia e sou brasileira. Consigo ver duas realidades bem diferentes, que tem a ver com fatores que passam por modos de governo, quantidade da população e  desigualdade social. No Uruguai, é outro planeta: foram poucos casos, poucas mortes e a vida está voltando ao normal, até shows já estão rolando. No Brasil, a realidade é muito preocupante. Mas, como você falou, a pandemia tem também esse panorama pessoal. Para nós, abriu-se uma brecha para a gente se permitir viver uma ideia que trazemos já faz um tempo, que é viver em contato com a natureza e estar menos naquele ritmo louco da produtividade paulistana, que está sempre muito focada no resultado e não no processo. Estamos muito interessados em desfrutar do percurso e não ficar olhando só para metas e resultados. 

 

 


 

Gui: Como você disse, tem uma parte óbvia que a pandemia trouxe, que são os cortes financeiros. Então, a gente pensou "beleza, já que vai mudar nossa renda, vamos mudar de vida". A gente fez uma transição para Monteiro Lobato (cidade a 104 quilômetros de São Paulo) e já estamos pensando, em algum momento, de passar uma temporada no Uruguai, a família da Lu é de lá. Ter uma vida mais nômade, isso é uma coisa que queríamos dar para o Ariel. E tem rolado um desgosto enorme com a política genocida deste governo. Tudo isso junto faz a gente querer passar uma temporada no Uruguai. 


Luana: Essa coisa do trabalho virtual se manter pós-pandemia, isso funcionaria para nós. É um privilégio nosso, é claro. Mas queremos ver formas de como trabalhar à distância, pra podermos nos movimentar mais e, com isso, aprender a viver com o mínimo, e não ter mais milhões de gastos, como viver numa cidade faz a gente ter. Pensando globalmente, tudo que está acontecendo pode ser uma necessidade para o ser humano. Chegamos num ponto de muita desconexão com a natureza. Gosto de pensar que é preciso passar por isso para ter um renascer. Às vezes fico desmotivada e preocupada quando vejo as pessoas pedindo a volta da vida como ela era antes. Receio que a pandemia passe e as pessoas simplesmente voltem à mesma vida de antes.


Gui: Se for ver, já estamos vivendo um pouco isso. O número de mortes continua alto e as pessoas estão voltando pras ruas como se nada estivesse acontecendo. 

 

Luana: As pessoas perderam empatia, tudo virou um número e já era. Só querem que a economia volte. Ninguém pensa que a pandemia está chamando a gente a agir. 


Gui: No mercado musical, sinto que acontece algo parecido. As marcas patrocinam as lives dos grandes artistas, e a desigualdade de espaço e oportunidade continua. Me incomoda não pensarmos uma nova solução para música. Será que é só colocar música no Spotify? Será que é só fazer live e seguir adiante? Como seria um novo mundo em que os artistas tivessem uma renda mais compartilhada? 


Luana: A gente fica à mercê do Instagram, do Spotify, do WhatsApp… não só os músicos, mas todo mundo. É uma manutenção do capitalismo, só que online.


Gui: Somos muito críticos a isso, mas soltamos a música por lá (risos). É que, por exemplo, eu gosto muito de agroecologia. Vejo movimentos que sustentam o agricultor e fico pensando como a gente poderia criar comunidades parecidas, mas de músicos e produtores. Tenho vontade de discutir isso com amigos e profissionais.


Luana: Continuamos sonhando com a utopia de que a vida pode ir por outros caminhos.

 

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Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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