Por dentro do ensaio: Verônica Ferriani

19/07/2017

veronica ferriani violão ensaio

Passava da meia noite quando a cantora Verônica Ferriani decidiu abrir todas as janelas e portas de seu quarto. O calor que fazia na cidade de São Paulo na madrugada da última terça-feira não a deixava dormir em paz, mas não era só isso que a preocupava: dali poucas horas, mais exatamente às 10h, ela tinha de estar no Estúdio Cardeal para o último ensaio antes do show que ela realiza nesta quarta-feira (11), às 21h30, na Casa de Francisca. E Verônica odeia chegar atrasada em seus compromissos. Mas, naquela madrugada, o pouco vento que agora refrescava a casa logo se transformou em chuva, e então Verônica fechou as portas e janelas e pode finalmente dormir tranquila.

Se bem que lidar com temperaturas altas não chega a ser um problema para a artista, que nasceu em fevereiro de 1978 em uma das cidades mais quentes do Brasil, Ribeirão Preto, a 313km da capital. Foi lá que ela teve seus primeiros contatos com a música – inicialmente ouvindo o dedilhar dos violões tocados por seus pais, depois apreciando a destreza com a qual sua avó deslizava os dedos pelo piano e, finalmente, assistindo às rodas de música que aconteciam na varanda de sua casa. “Aos 8 anos, ganhei meu primeiro violão de Natal e comecei a fazer aula. Lembro de ter uma sensação muito boa ao começar a fazer parte da roda, tocando também”, conta ela.

O que será que esta Verônica criança pensaria se lhe dissessem que, dali há alguns anos, lá estaria ela novamente em uma roda musical, mas desta vez acompanhada de três dos instrumentistas brasileiros mais admirados de sua geração?

Pois não seria mentira: no ensaio que acontecia na manhã (chuvosa) daquela terça-feira, estavam ao seu lado Rodrigo Campos (guitarra), Thiago França (sax e flauta) e Meno del Picchia (baixo) a repassar o repertório que o quarteto toca nesta quarta-feira. O show faz parte do lançamento do disco “Porque a Boca Fala Aquilo do Que O Coração Tá Cheio”, segundo de sua carreira e o primeiro em que ela grava suas próprias composições.

Até então, Verônica era uma reconhecida como das mais talentosas intérpretes da nova geração. Poucos - ou somente ela - sabiam de seu lado compositora. Parte da “culpa” por tirar suas canções da gaveta deve ser credita ao músico Rodrigo Campos. “Ele foi a primeira pessoa a quem mostrei minhas músicas e o primeiro a me incentivar a gravar um disco com elas”, conta.

O lançamento do álbum aconteceu no Auditório Ibirapuera, no final de novembro – com Rodrigo na banda - e a deixou ainda mais convicta de que estava fazendo “o que tinha de ser feito”. “A sensação foi ótima. No início senti alguma mudança mais na movimentação do corpo, em relação aos arranjos, mas musicalmente eu já vinha cantando-as e descobrindo formas de interpretá-las, então a parte musical como cantora foi tranquila. Acho que por terem nascido de mim de forma espontânea, não havia como ser tão complicado. Senti o mesmo que quando comecei a cantar, ainda arquiteta”.

Já na pré-adolescência, Verônica tinha um sonho: cursar arquitetura. “Sempre curti essa relação entre os espaços e as pessoas. Mas é claro que, aos 12 anos, quando comecei a falar em ser arquiteta, eu curtia muito mais porque gostava de brincar de Lego (risos). Mas me lembro de começar então a desenhar plantas baixas, de brincadeira, viajando na melhor forma de organizar os espaços”.

Assim, anos depois ela trocaria Ribeirão por São Paulo e se matricularia no curso de Arquitetura da FAU-USP. A música parecia destinada a coadjuvante, mas aí... “No meio do terceiro ano, pela primeira vez eu senti muita vontade de estudar música, ter alguma atividade paralela à FAU, que era integral. Nunca deixei de pegar meu violão e cantar sozinha nas horas vagas, mas nunca tinha estudado pra valer. Aos poucos fui sentindo que minha maior força estava na música”.

Verônica não deixou de se formar, mas tomou a mais importante decisão de sua vida: dedicaria seus dias à arte de fazer música. “Passei a frequentar as rodas mais tradicionais em São Paulo e no Rio, até que comecei a cantar profissionalmente e fui convidada pra uma temporada no Traço de União, abrindo os shows do pessoal da Velha Guarda, como Riachão, Monarco, Surica, tia Doca, Noca, Elton Medeiros, Wilson das Neves, Nelson Sargento, Luis Carlos da Vila, entre muitos outros", lembra. "A partir daí, vieram as temporadas de 2 anos no Carioca da Gema e Ó do Borogodó, vivenciando toda aquela onda da nova geração do samba da Lapa carioca e da Vila Madalena”.

Em 2009, gravou seu primeiro disco, homônimo, com repertório em que recuperava canções desconhecidas de João Donato, Marcos Valle e Paulinho da Viola. Dali vieram mais shows, mais elogios da crítica e uma sensação: a de que o próximo passo era tirar aquelas canções da gaveta.

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“Adoro esse andamento. Tem tudo a ver com o que sinto sobre a música”.  É Verônica falando. Estamos na sala de ensaio do estúdio Cardeal e ela acaba de cantar imensamente bem a versão intimista de “Estampa e Só”, terceira música do álbum e que ganhou arranjo mais leve do que o original.

Verônica veste uma jaqueta de couro por cima da camisa amarela, e sua calça vermelha é da mesma cor que seus sapatos, que não raro encostam nos cabos que passam pelo chão acarpetado da sala. Na parede atrás dela, uma espécie de cortina vermelha – como a que separa o público da abertura do espetáculo – faz o ensaio ganhar um charme inequívoco.

O clima é de reunião de amigos, ainda que a cantora esteja a todo momento orientando ou sugerindo ideias. Nos intervalos entre as canções, enquanto ajeitam uma ou outra passagem, os quatro aproveitam para se atualizar da vida um do outro, contar histórias e dar risadas, especialmente quando é Thiago França quem está falando - ele e Verônica se conheceram no período em que ambos se apresentavam na casa Ó do Borogodó.

No ensaio para o show desta quarta-feira – mais intimista e com uma banda sem instrumentos de percussão -, cabe a Thiago os momentos de maior peso, especialmente quando solta belas e inesperadas frases do sax. Em outros momentos, empunha a flauta e traz leveza e lirismo.

Do outro lado, sentado em um puff laranja, está o “culpado” Rodrigo Campos. De boina vinho e camiseta branca, ele segura uma guitarra Fender preta e fala pouco. Musicalmente, porém, sua presença é enorme. Em “C'est La Vie”, ele dedilha delicadamente cada nota da canção, privilegiando os desenhos agudos; mas, no refrão, troca de região e vai para o grave, fazendo o arranjo igual ao do baixo comandado com destreza por Meno del Picchia.

É Meno, aliás, que percebe como a banda praticamente recriou o arranjo da faixa que abre o álbum, "De Boca Cheia". "No disco ela tem uma levada super pop...", ele comenta, enquanto estão tocando. De fato: na versão que devem apresentar no show de hoje à noite, há espaços novos que são preenchidos pela flauta de Thiago e a marcação da guitarra de Rodrigo. Ninguém, porém, brilha mais que a voz de Verônica: a versão mais low-profile privilegia sua forma de cantar e dá ainda mais força à letra.

Embora seja um ensaio, Verônica está ali como se estivesse no palco: não economiza na voz, não regula os gestos, não perde a emoção. Em “Não é Não”, por exemplo, estende os agudos para pontos inimagináveis quando canta “E a gente/vai...”, e esse “vai” soa como se Elis Regina estivesse a fazer das suas. Mas era Verônica. Em um ensaio.

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São 12h10 e o ensaio chega ao fim. Thiago França tem compromissos dali a pouco e puxa a fila. Verônica abre o computador e convida Meno a ver um vídeo em que ela e Rodrigo Campos se sentam no chão e, ele de violão em punho, interpretam “Ribeirão”. Rodrigo assiste de longe, elogia as belas imagens gravadas no Sesc Belenzinho e vai guardando sua guitarra e seus pedais. Comenta que já assistiu duas vezes ao filme “Azul é a Cor Mais Quente”, vencedor do último festival de Cannes e que entrou em cartaz esta semana em São Paulo. Verônica faz menção de sair do ensaio e ir ao cinema assistir ao longa, embora em dias de pré-show ela prefira ficar reclusa e concentrada.

Verônica se despede simpática e alegremente do pessoal do estúdio. Desce a longa escada que o separa da rua. Verônica se desloca entre um degrau e outro, quer saber se está chovendo. Quando alcança a calçada, estende o braço direito, abre a mão: nenhuma gota. Fica feliz. Nos ombros, carrega um violão, e provavelmente não é aquele que ganhou aos 8 anos, nem o que lhe serviu para estudar música durante a faculdade de Arquitetura – eles já cumpriram sua missão e a trouxeram até aqui. A este que agora ela carrega enquanto desce a rua Cardeal Arcoverde - o sol se abrindo timidamente no céu - a este caberá leva-lá a novos destinos.

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Com exclusividade para o Azoofa, Verônica Ferriani comenta sobre o show na Casa de Francisca, sua relação com o ato de compor e explica como a arquitetura a ajuda na hora de fazer música:

AZOOFA: Alguns escritores dizem que não releem seus livros depois de publicados, por medo de encontrarem falhas ou ideias para melhorá-lo. Como está sendo sua relação com as suas composições? Já bateu essa sensação de “aqui eu poderia ter feito algo diferente?”

Verônica Ferriani: Ainda não. Talvez bata daqui a algum tempo. Na verdade eu as li e reli bastante antes de fechar e gravar, dei uma boa burilada ao longo do processo de composição das quase 30 músicas, que durou 2 anos. Então ainda estou com a sensação de ter feito as melhores escolhas, dentre o que eu tinha em mente. Fui bem cuidadosa também, pra dizer o que eu realmente queria. Gravei muito, escutava, e as letras que fixavam geralmente eram as melhores. Talvez a escolha entre as 30 tenha sido feita sobre as que estavam mais bem acabadas também. Já nas outras pode ser que mexa ainda em alguns detalhes, pra quem sabe gravar um dia, ou dar pra outra pessoa gravar.

Em sua maioria, a nova safra de compositores brasileiros - especialmente nesse nicho que se convencionou chamar de MPB – tende a escrever muito sob a perspectiva do “eu”; há uma tendência a trazer experiências pessoais para as letras, ao contrário, por exemplo, do que se viu em gerações anteriores. Teu processo de escrita passa por olhar pra si mesma, a tirar ideias de suas próprias vivências?

Compus a maioria das letras em primeira pessoa, realmente. E isso tem rolado. Pode haver muitas explicações pra isso, principalmente de cunho sociológico. No meu caso, tem algo de inspiração pessoal nelas também, mas existia um propósito maior, que era o de trazer um ar confessional ao tema amoroso, que é um tema sensível, e dar intencionalmente essa cara de vivência pessoal, o que é sempre mais emocionante pra quem escuta. Não é autobiográfico, mas não senti vontade também de me distanciar disso nas letras.

Qual a importância de realizar um ensaio geral 1 dia antes do show? Em ensaios como esse, você costuma aparecer com alguma ideia de última hora?

Eu gosto de ensaiar um dia antes pra já ir entrando (ou voltando) ao espírito do show. Nossa geração faz  trabalhos diversos, é um jeito de preparar o terreno e dar o clima do show que vai vir. Pode acontecer de mudarmos alguns detalhes sim, ainda mais neste show, cujos arranjos foram refeitos a partir do disco pra turnê no Japão, sem bateria e com número menor de músicos do que o quarteto base do disco.

Você costuma frequentar o estúdio Cardeal? Os ensaios para o show no Auditório foram lá?

Nesse estúdio fizemos todos os ensaios das gravações do disco. Tenho ensaiado aqui outros projetos também. Os ensaios do Auditório foram em outro estúdio porque eram muitos músicos e por limitação de horário, já que tivemos que ensaiar mais tarde da noite. Mas eu adoro aqui, equipamentos são novos, o microfone é o que eu gosto pra ensaiar e há amplificadores de guitarra pra todos os gostos.

A Casa de Francisca é um dos lugares mais peculiares da cidade. É intimista ao máximo. Já assistiu a outros shows na casa?

Esta semana assisti Mulheres Negras + Metá Metá, já assisti a vários. Canto lá desde o início também, com Chico Saraiva. Depois fiz shows com Douglas Lora e com a Giana Viscardi. Gosto de lugares pequenos, sentir de perto a música e o artista. Acho até mais difícil às vezes cantar lá do que no Auditório, a proximidade do público é um desafio maior à concentração na música e ao medo da exposição. Mas isso ajuda justamente a deixar a música ao vivo mais viva.

Seu disco não é propriamente intimista; tem vários momentos de peso. É curioso pensá-lo sendo executado na Casa de Francisca. Há alguma adaptação/ mudança para este show?

As músicas foram todas compostas voz e violão, então pra mim seria natural mostrá-las mais acústicas em algum momento. No disco, elas ganharam um peso que achávamos ter a ver pela contundência das letras, e um traço verborrágico. Ao mesmo tempo, surgiu o convite pra lançarmos o disco no Japão, em turnê de 6 shows, entre outubro e novembro deste ano. Tínhamos 4 passagens e shows em locais para 60 a 200 pessoas, ou seja, espaços intimistas. Decidi chamar músicos de personalidade que pudessem recriar os arranjos sobre os mapas e escolhas do disco, preservando o que julgássemos importante, mas abrindo a novos experimentos e à leitura de cada um também. O resultado e a experiência foram tão bacanas que decidimos trazer o show desta forma também a São Paulo. Essa liberdade foi um princípio básico no disco, e reviver isso é um ótimo partido pra minha liberdade de interpretação.

E o repertório? Será 100% dedicado ao novo álbum?

Sim, com acréscimo de uma inédita minha, uma música do Rodrigo e participação dele cantando mais uma sozinho - eu não perderia a oportunidade de ouvi-lo um pouco mais no show - e uma do Romulo Fróes, com Clima e Nuno Ramos.

Você ainda pratica arquitetura? Vê, de alguma forma, alguma influência dela na hora de fazer música?

Só pratico arquitetura hoje em dia com os olhos e com a mente. Estou naturalmente ligada à cidade, ao trabalho de meus amigos, à Bienal, mas AutoCad não mais, hehe. Meu TFG na FAU tratou justamente do estudo comparativo das linguagens visual e musical, tendo como produto final a composição de 3 músicas sobre 3 aquarelas de Paul Klee. Desde sempre artistas relacionam estas artes. A forma de construir uma canção ou um projeto, a partir do que chamamos em arquitetura de "partido", ou em música, "tema", tem entre si muitas semelhanças, até no que concerne a união de um senso estético e a matemática. Enfim, não sei descrever exatamente como funciona, mas acho que existe uma forma de raciocínio em comum, uma ligação entre ambos os olhares sobre a construção de nossos produtos finais. E isso é bonito de ver e entender um pouco mais como raciocina e como sente o homem.

* fotos: Gustavo Kamada

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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