Thiago França e sua homenagem a João Antônio

19/07/2017

 

Há um sopro que soa quase que com fôlego infinito no atual cenário da música brasileira, trazendo a tona, num ritmo frenético, novos e diferentes projetos musicais. Ao lado dos seus fiéis músicos companheiros, o responsável por tal façanha é o saxofonista e produtor Thiago França. Além dos tantos álbuns e trabalhos lançados até então, como Metá Metá, Sambanzo, MarginalS, e as participações nos discos Nó Na Orelha, do Criolo, Bahia Fantástica, do Rodrigo Campos, e Fantástico Mundo Popular, do Sombra, apenas para citar algumas delas, França acaba de lançar “Malagueta, Perus e Bacanaço”, seu novo projeto musical, inspirado no livro homônimo do escritor paulistano João Antônio, morto em 1996.

O livro, que completa este ano 50 anos desde sua publicação, em 1963, é composto por 12 contos, sendo que um deles, o que dá nome à obra, conta a história de três malandros, jogadores de sinuca, que partem juntos para uma noitada em busca de jogatina e dinheiro. Durante doze horas, noite e madrugada adentro, os personagens saem de andada pelas ruas da São Paulo do final da década de 50, partindo da Lapa e passando por Água Branca, Barra Funda, Pinheiros, Pompeia, Perdizes, pelo centro de São Paulo, até retornar à Lapa de onde saíram. Nesta caminhada, muitas histórias, encontros tortuosos com outros malandros, furtos, aperto, frio, fome, bebida e muita sinuca e jogatina, dinheiro ganho e dinheiro perdido aos montes. Os protagonistas são Malagueta, que carrega o apelido por seu costume de comer pão com pimenta malagueta, acompanhados de cachaça, um velho, largado, sempre meio capengo, meio bêbado, vestindo um paletó de mangas estropiadas remendadas com pedaços de pano; o Bacanaço, moreno alto e mandão, malandro das mulheres, que esbanja picardia, elegância, malandro fino, vadio de muita linha, envolvido com mascates, policiais e mestres da jogatina; e o garoto Perus de 19 anos, morador de Perus, de onde veio o apelido, fugido do quartel, da polícia, sobrevivendo de pequenos furtos e bicos, mas respeitado por alguns patrões do jogo, pela sua habilidade com as bolas finas da sinuca.

É este o pano de fundo, o substrato, a matéria prima para o disco de França. Uma forma de homenagear João Antônio, um dos maiores jornalistas e escritores da literatura brasileira, e uma de suas principais obras, vencedora de vários prêmios, entre eles, dois Jabutis (Revelação de autor e Melhor livro de contos), um fato inédito na época para um escritor estreante.

O resultado do disco é além de um retrato sonoro fiel aos personagens e ao conto, um mix de canções que passeiam por bolero, samba e até “snooker samba”, um samba jazz para sinuca, alcunha dada pelo baixista Marcelo Cabral para o estilo da música que retrata o personagem Carne Frita, um respeitado jogador de sinuca, temido e venerado por todos os malandros e jogadores do Brasil. Um projeto bem clássico, cru, sem muita piração ou experimentações, distante do som do Metá Metá, Marginals ou Sambanzo e mais próximo de outros trabalhos de Thiago. “O Malagueta, Perus e Bacanaço é mais um encontro do meu primeiro álbum, o Gafieira, com o Passo Torto, projeto feito em parceria com Rômulo Fróes, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral”, diz Thiago, numa conversa durante a audição do disco, na época em que ele fazia os últimos ajustes finos, num estúdio na Vila Madalena.

A faixa que marca esse encontro com os outros projetos é “Na Multidão”, que traz essa influência do Passo Torto, com um arranjo pensado especificamente para os metais e cordas, característica forte do Passo. A letra é uma parceria entre Rômulo Fróes e Kiko Dinucci, com Juçara Marçal no vocal, Marcelo Cabral no baixo, Rodrigo Campos na guitarra, Kiko no violão e França nos metais.

Em outras faixas, o músico e produtor Daniel Ganjaman, o rapper Ogi e o escritor Maurício Pereira também somam suas experiências ao álbum, além de Welington “Pimpa” (bateria), Anderson Quevedo (sax barítono), Amilcar Rodrigues (trompete), e Didi Machado (trombone).

Ganjaman aparece em duas faixas, com o seu teclado Hammond, sendo uma delas a música “Bolero de Marli”, sobre a personagem Marli, uma prostituta, namorada de Bacanaço, que também é o cafetão dela. “Eu fiquei imaginando uma mulata, dos anos 50, prostituta, cafetinada por um jogador de sinuca e aí veio o bolero, na lata, que vem carregado de um sarcasmo porque tem um tom meio alegre, mas no fim a coisa acaba triste porque, afinal, independente do amor dos dois, ela é a puta e ele o cafetão dela”, conta França.

Já o rapper Ogi, que também teve influência de João Antônio no seu disco “Crônicas da Cidade Cinza”, canta ao lado de Kiko Dinucci na música “Caso do Bacalau”, que retrata a surra que o personagem Bacalau toma por não pagar a estia, uma pequena parcela da quantidade de dinheiro que o jogador ganhava nas apostas da sinuca. Aqui o disco ganha talvez a faixa mais distinta das outras, mas não menos fiel ao personagem, que segue sendo apresentado com um refrão narrado por Kiko Dinucci, acompanhado de um rap puxado por Ogi.

O disco segue com outras vinhetas, que representam cada um dos personagens, e músicas que se passam no centro de São Paulo, como a faixa “São Paulo de noite”, que traz um jogo de sobreposições de trombone, sax, trompete e outros metais, arranjados para descrever a vida noturna e soturna da Avenida São João, por sua vez repleta de sobreposições de acontecimentos, como o bondinho e os carros que passam, as luzes amareladas dos postes, as pessoas atravessando a rua, o cara que passa correndo em frente ao carro, os prédios em construção e toda a constituição do cenário da metrópole que São Paulo virava na década de 50.

Mas, quem dita o auge do álbum, o carro chefe de toda a orquestra do trabalho, é a música homônima ao livro, ao conto e ao disco, a faixa “Malagueta, Perus e Bacanaço”. Gravada com uma variação entre sax, trombone, trompete e barítono, ela se desenvolve no mesmo ritmo que as histórias no livro são contadas, numa cadência tranquila, morna, mas com ápices, nos momentos em que há tensão durante as jogatinas e encontros com outros malandros. “Eu fui escrevendo ela com esse jeito meio morno, que é mais ou menos como começa a história, essa relação de malandro dos caras, que você não sabe para onde vai, com os caras meio com sono, com fome, um certo marasmo, jogando sinuca, tomando cachaça, mas, de repente, tudo vira e entra uma confusão, uma história mirabolante, um caso maluco e depois já volta tudo ao marasmo anterior. E aí eu comecei a compor ela pensando nisso, num tema mais tranquilo, todo meio para trás, mas que aí do nada entra, por exemplo, o único improviso de sopro que o disco tem, para ir modulando bem essas reviravoltas da história”, explica Thiago.

Para trás também é a origem do projeto, que começou com essa música, em 2010, quando ela era tocada nas noites da festa Gafieira, que acontecia às segundas-feiras, no bar Ó do Borogodó, na Vila Madalena. A partir da aceitação dela pelo público, pela admiração de Thiago pela obra de João Antônio e com o apoio de seus amigos músicos, como Rodrigo Campos, que foi quem indicou o livro ao França e quem o instigou a continuar a produzir outras músicas em cima da história, o disco se desenrolou e, assim, sem pretensão de ser um disco de carreira, clássico e pé no chão, não deixará de surpreender os ouvintes mais exigentes e de fazer dançar os mais animados.

O álbum já está disponível para download aqui. Baixe aí e se prepara. Prepara porque é classe média altíssima, é ferro na boneca, é pedrada sonora na cabeça. Aproveita e também passa num sebo, na livraria e vai enriquecendo o álbum com a própria história, o próprio conto. Afinal, é tudo uma simples homenagem. E viva João Antônio.

[caption id="attachment_1902" align="aligncenter" width="300"] João Antônio[/caption]  
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