Azoofa Indica: Record Store Day

19/07/2017

O Record Store Day - ou o Dia das Lojas de Discos - acontece em todos os continentes, exceto na Antártida, sempre no terceiro sábado do mês de abril. O evento começou nos Estados Unidos, em 2007, e espalhou-se para países da Europa, tornando-se um dia de lançamentos exclusivos preparados pelas gravadoras, movimentação intensa de público e robusto número de vendas. No Brasil, entretanto, limitava-se a ações criadas individualmente por algumas lojas. Até agora.

Neste sábado (18), acontece no MIS o Record Store Day Brasil, praticamente a primeira edição no país do maior evento mundial de celebração da cultura do vinil, gravadoras, selos e lojas independentes. Das 12h às 20h, o evento reunirá mais de 70 expositores, entre lojas, sebos, colecionadores e vendedores especializados. O músico Kid Vinil, notório colecionador de discos, será o anfitrião do evento. Os músicos Bruno Souto e Rômulo Froes se apresentam durante o dia no auditório do Museu.

Por telefone, o Azoofa conversou com Marcio Custódio, dono da Locomotiva Discos e principal organizador da edição brasileira. Ele - que viveu em Londres e participou de diversas edições do evento por lá - falou sobre o descaso das gravadoras brasileiras para com a data e a escolha de Kid Vinil para ser o anfitrião do evento.

AZOOFA: Como funciona o Record Store Day? Ele já aconteceu no Brasil, mas nunca de uma maneira organizada como agora...

Marcio Custódio: É mais ou menos isso. O Record Store Day praticamente não existe no Brasil. O que existe até hoje é a movimentação de algumas pequenas lojas que tentam fazer algo diferente nesse dia – uma promoção ou um evento, por exemplo. O que dificulta para que ele aconteça no Brasil é que as gravadoras não lançam nada para celebrar esse dia. Nem as grandes gravadoras nem as independentes. A gente fica dependendo dos lançamentos internacionais. Só que não existe um distribuidor gringo que atenda o Brasil para que a gente receba os discos nessa data. Então, o Record Store Day é o agito que poucas lojas fazem na data. Na verdade, é basicamente eu, na Locomotiva Discos (risos). Eu sempre fiz evento nesse dia. Em 2011, fiz uma feira de discos nesse dia. Em 2012, eu inaugurei uma loja nesse dia. Em 2013, eu dei desconto de 20% para todos os discos nesse dia. Tento fazer algo diferente para celebrar a data. Mas sem o apoio das gravadoras, fica difícil realizar algo marcante.

Um dos atrativos do Record Store Day lá fora é que é um dia de lançamento de discos...

Pois é, eles lançam títulos exclusivos de alguns artistas, tanto os renomados quanto os iniciantes. É uma série de lançamentos que acontecem especialmente nesse dia. Aqui no Brasil, infelizmente as gravadoras não querem fazer nada. Elas poderiam lançar edições especiais de Chico Buarque, Caetano Veloso, discos raros do Gil... mas nada é feito, ninguém se mexe, ninguém se importa, ninguém tá nem aí pra essa data.

Mas não falta para a edição brasileira ser maior e mais divulgada para que as gravadoras se mexam? Quem sabe depois deste sábado, elas pensem diferente.

Não sei. Eu tenho poucas esperanças. Em 2012, saí em capa de jornal falando disso. E de lá pra cá nada foi feito. Tentei contato com algumas gravadoras e a resposta delas é uma só: não há interesse.

O Record Store Day começou onde?

O Record Store Day começou nos Estados Unidos em 2007. Foi uma iniciativa das lojas independentes do país. Eles viram que muitas estavam fechando e resolveram fazer algo para salvar essas lojas, algumas com 50 anos de vida. Criaram o Dia das Lojas de Discos. Desde então, começou um movimento forte entre eles, que ia desde a realização de eventos até promoções, shows e os lançamentos exclusivos. E foi crescendo de uma tal forma que as gravadoras começaram a reservar esse dia para alguns grandes lançamentos.

E outros países também foram aderindo...

A Inglaterra entrou nessa logo em seguida e hoje tem um Record Store Day muito forte. Lá, as lojas ficam com filas na porta muito antes de abrirem. Outros países da Europa também tem tradição na data, além dos Estados Unidos.

Então, esse formato de feira que vai rolar no MIS é só no Brasil?

É, só esse ano que está sendo assim. Como você sabe, eu organizo as feiras de discos a cada 2 meses. Eu já estava para fazer uma em março ou abril, e como este é o mês do Record Store Day, resolvi unir o útil ao agradável, e o MIS se interessou. Também os expositores se mostraram animados com a ideia. Tem expositor vindo de Florianópolis, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Santos.

Qual é o principal objetivo do Record Store Day desse ano?

Queremos fortalecer a data no calendário brasileiro, divulgar as lojas de discos e o mercado como um todo. Mostrar que existe muita gente interessada no Record Store Day, para que no ano seguinte o evento cresça ainda mais e conte com o apoio das gravadoras.

O Kid Vinil será anfitrião do evento, algo que não existe nas versões gringas. Como rolou essa ideia?

A gente tem uma relação muito boa com o Kid lá na Locomotiva Discos. Queríamos uma pessoa que fosse um símbolo do vinil. Nada mais natural do que escolhê-lo. Trata-se do maior colecionador de discos do Brasil. E o Kid adorou a ideia. Coincidentemente, ele está lançando a biografia dele e um compacto da atual banda, e vamos aproveitar para divulgar isso também.

Cada um poderá levar até 50 LP’s para troca com os expositores. Por que essa limitação?

É algo que já acontece nas feiras que eu organizo. As pessoas sempre levam vários discos e usam como moeda de troca com os expositores. A gente propõe esse limite porque já teve colecionador que apareceu na feira com um caminhão lotado de discos, ou carregando 5 caixas abarrotadas... não tem problema levar mais do que 50 discos, desde que haja bom senso e que você consiga carregar os discos... (risos).

O evento terá shows de Bruno Souto e Romulo Fróes. Como rolou a escolha deles?

A Locomotiva Discos lançou no ano passado em vinil o primeiro álbum do Romulo Fróes, de 2004, e a estreia solo do Bruno Souto, de 2014. Temos uma relação muito boa com eles e gostamos muito dos discos, obviamente. Lá fora, o Record Store Day também promove shows, é algo que atrai público e agrega bastante ao evento.

O MIS voltou a ser um dos mais importantes espaços culturais de São Paulo, depois de um período meio desconectado do público. Agora, ele começa a olhar também para a música. Volta e meia tem show por lá, mês passado rolou a feira Sacola Alternativa e agora o Record Store Day...

O MIS está muito mais democrático, né? Eles vem promovendo exposições populares, com ingressos baratos ou gratuitos, como a do David Bowie e a do (Stanley) Kubrick. Tem também a Feira Plana, de publicações independentes... O MIS certamente é o museu mais antenado com o que está acontecendo no cenário cultural da cidade.

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arte | belisa bagiani

imagens | divulgação

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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