Azoofa Indica: Carne Doce

"Princesa", o segundo disco do Carne Doce, vem recebendo elogios de crítica e público desde que foi lançado, em agosto. Neste domingo, em São Paulo, o grupo apresenta pela primeira vez o novo show no Mirante 9 de Julho, às 19h, dentro da programação do Samsung Conecta SP.

A urgência das letras de Salma Jô se mesclam com arranjos ora intimistas, ora experimentais. Das onze canções que formam o disco, 4 passam dos 5 minutos de duração. A impressão é aquela que se percebe nos grandes discos: uma banda extremamente à vontade executando suas melhores ideias.

Salma Jô falou com exclusividade ao Azoofa sobre a alta voltagem das letras, o amadurecimento do grupo neste segundo disco e a dificuldade em ser artista independente. "É um trabalho difícil e que não tem perspectiva".

AZOOFA: Vocês chegam a São Paulo depois de passarem por Rio de Janeiro e Brasília. Como foram os shows nessas capitais?

Salma Jô: Foram bem bons, nós já fizemos uns seis shows em cada uma dessas cidades (mais em São Paulo), e lá temos um público legal que conhece as letras, canta junto, faz o show com a gente. Depois do clipe de Artemísia e do segundo disco, isso aumentou, mas a maior parte nós conquistamos nesses dois anos, desde o primeiro disco.

Vocês tinham dois meses de banda quando lançaram o disco de estreia, em 2014. Agora, já somam dois anos tocando juntos. De que maneira esse período forjou o que escutamos agora em Princesa?

Nós estamos naturalmente mais entrosados e nos escutando melhor, os arranjos estão melhores em composição e execução, tem mais dinâmica, é mais consciente, mais rico.

O disco vem recebendo críticas positivas, que destacam o experimentalismo e a evolução dos arranjos e alta voltagem das letras. Como vocês pensaram na sonoridade e na poética desse disco?

Sinto que a evolução foi maior nos arranjos que nas letras. Isso da alta voltagem a gente já havia apresentado no primeiro disco, mas nesse, talvez por causa dos temas e pela melhoria dos arranjos, repercutiu mais, e foi ouvido com mais atenção. Também sinto que esse é um disco que proporcionalmente, ao contrário do primeiro, está atingindo mais o público que a crítica.

Em entrevista recente, você disse temer que a “pegada feminista” nas letras seja interpretada como “uma grande compilação de denúncias”, como se o fato de ser mulher a colocasse numa situação especial. Como vem sendo a recepção da crítica e do público especificamente sobre os seus versos?

É complicado querer controlar como as pessoas vão interpretar as letras, isso em parte é minha responsabilidade, em parte não. Eu fiquei bem feliz com a reação a "Artemísia", que tem um tema difícil, pesado, político, mas que sinto que o que sobressaiu foi a força da letra, da obra de arte. Eu vejo "Falo" sendo celebrada como "hino", sendo como uma música que "todo mundo deveria ouvir", ou que "x pessoas deveriam ouvir", e ainda não sei como me sentir em relação a isso. Mas eu fico orgulhosa porque escrevi coisas que repercutiram, que estão sendo discutidas, porque os meus versos importaram para algumas poucas muitas pessoas.

Falando agora de influências: houve algum filme, livro ou álbum que influenciou decididamente vocês na produção deste disco?

Estive pensando num álbum específico que tenha nos influenciado e não encontrei, tem um combo de músicos que na mistura é que nos influencia e não uma carreira em particular. O blog fuersie.tumblr decididamente me ajudou a pensar umas coisas diferentes sobre feminismo. "Carta ao Pai", do Kafka, e "Sombras de Reis Barbudos", de J. J. Veiga, foram referências diretas para duas músicas do disco.

A música independente brasileira vive uma fase luminosa, especialmente nesse ano de 2016. Como vocês enxergam esse momento da produção musical no Brasil?

A produção está ótima porque tem muita banda e artista bom, mas não existe um mercado sustentável pra todos esses artistas. É um trabalho difícil que fazemos e que não tem perspectiva.

O show em São Paulo será no Mirante 9 de Julho, um espaço aberto, recém revitalizado e que vem sendo palco de shows e outras manifestações culturais, na sua maioria grátis. Como é pra vocês tocar em um espaço como esse?

É ótimo pela capacidade de podermos atingir esse público que está passando, que por outra oportunidade nem saberia da banda, por podermos sair, um pouquinho que seja, do nosso nicho. E também por podermos atingir pessoas do nosso próprio público que não puderam ir nos outros shows por conta da acessibilidade, censura de idade etc.

***

arte | marina malheiro

Quem escreveu
Eduardo Lemos

Jornalista, é sócio da Navegar Comunicação e Cultura, agência que atende clientes como Os Paralamas do Sucesso, Mostra Cantautores, Luiz Gabriel Lopes e Cao Laru. É idealizador do festival Navegar Noites Musicais, cuja primeira edição aconteceu em 2017, em Paraty, e do projeto Nick Drake: Lua Rosa, em homenagem ao músico inglês.

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