Duas histórias em uma

Em autobiografia, Bruno Gouveia, vocalista do Biquíni Cavadão, conta a sua história e os bastidores da trajetória nada fácil da banda

Bruno Gouveia com Carlos Coelho, Miguel Flores da Cunha e Álvaro Birita (Divulgação)

 

Bruno Gouveia parece estar em paz com a sua história e a história do Biquini Cavadão, banda que ele fundou em 1983 com mais quatro amigos que conheceu no colégio, no Rio de Janeiro. Ao menos é o que mostra a autobiografia "É Impossível Esquecer o Que Vivi" (Chiado), escrita pelo cantor. E acredite, não foram caminhos fáceis.

 

Nas mais de 300 páginas, Bruno conta sobre a sua vida e também a da banda, narrando os bastidores da indústria fonográfica dos anos 1980 pra cá. Ele lembra os vários impasses vividos com as gravadoras e também um dos momentos mais doloridos de sua vida pessoal, a perda do filho Gabriel, de 2 anos, em um acidente de helicóptero.

 

"Quando a gente escreve uma biografia surgem situações difíceis, às vezes mal resolvidas, e no livro bastou-me escrever sobre eles para ficar aliviado", conta Bruno ao Azoofa.

 

Leitor voraz de biografias, Bruno começou a planejar um livro sobre a banda para 2014, quando eles completariam 30 anos de carreira.

 

"Minha ideia era que outra pessoa escrevesse. Mas aí fui fazendo. Eu conheço muito bem essa história. Fui escrevendo em ordem cronológica e foi virando uma autobiografia", diz o cantor.

 

O que vemos em cada capítulo é a saga de uma banda lutando para ser tratada com respeito pelas gravadoras desde o primeiro hit, "Tédio", de 1983.

 

Mas apesar de tudo o que rolou com a banda, o livro vem sem qualquer tom de acerto de contas. É apenas a história de uma banda tentando sobreviver fazendo música.

 

 

 

Do começo, Bruno relembra episódios como a falha de equipamentos de um festival que deixou a banda em apuros (bem como Legião Urbana e outras) e o mercado do playback, que gerava inúmeros shows para as bandas, especialmente as que frequentavam programas de TV como o do Chacrinha. No livro, ele conta que a prática não agradava as bandas, mas era como o negócio funcionava.

 

O disco de estreia, "Cidades em Torrentes", de 1986, seria fortemente impactado pelo Plano Cruzado. "Ninguém comprava nada com medo do futuro", escreve Bruno.

 

Mas desde esse momento, a banda passou a sofrer com certo descaso das gravadoras. O disco de estreia vendeu inicialmente 18 mil cópias. Um número não muito bom e que só melhorou depois de uma nova empreitada para divulgar o disco, com remixes e com o single "Timidez" nas rádios, o que subiu a vendagem para 60 mil.

 

Os dois discos seguintes seguiram o mesmo caminho de incertezas e pouca aposta da PolyGram. O quarto disco, "Descivilização" seria um divisor de águas com os hits "Zé Ninguém", "Impossível" e "Vento Ventania".

 

O que houve com a banda nesse período foi curiosíssimo para não dizer incompreensível. "Zé Ninguém" chegou ao topo das paradas de rádio e ganhou indicação ao primeiro VMB.

 

Enquanto isso, "Vento Ventania" era tocada de forma orgânica e vinha fazendo cada vez mais sucesso. A música entrou até em novela. Mesmo assim a gravadora insistiu em lançar outra música de trabalho e avisou que não tinha verba para gravar o clipe da música mais ouvida do Brasil naquele momento.

 

Bem, essas são só algumas pinceladas dos bastidores que o livro revela. Há também momentos divertidos de turnês e alguns apuros em festivais como o Hollywood Rock e o Rock in Rio 3, este, um momento de volta por cima da banda.

 

Apesar de todos os problemas, a banda não se distanciou de gravadoras. Com todas as mudanças que a tecnologia trouxe à indústria fonográfica, as relações precisaram mudar.

 

"A indústria vive fases, LP, K7, CD... O Biquini sempre esteve antenado com isso. A gente não deixa de lado parcerias com gravadoras porque acho que a tecnologia veio para que a gente trabalhe junto. Antes existia uma lógica muito paternalista. Hoje a negociação é melhor".

 

Mas ao longo do livro o vocalista também reconhece os erros da banda em algumas decisões da carreira. "Não queria um livro chapa branca. A gente errou também e falo sobre esses erros. Por mais que a gente queira colocar a culpa de tudo nas gravadoras, não foi só eles que erraram".

 

Há partes delicadas como a saída do baixista Sheik, que em certo momento foi mandado embora da banda, e ainda uma rusga com um jornalista que incomodou bastante Bruno.

 

A perda do filho Gabriel e de sua ex-mulher em um acidente de helicóptero, em 2011, ganha um capítulo especial que leva o nome do menino. Bruno relata o momento e como foi avisado da tragédia. Conta sobre a sua dor, mas sem entrar em detalhes sobre o que houve. Diz que escreveu essa parte de cabeça, sem reler notícias sobre o que tinha acontecido.

 

Bruno optou por publicar o livro sem imagens e aproveitar a tecnologia para oferecer mais conteúdo ao público. Então, não espere encontrar algo como as tradicionais biografias com aquele trecho repleto de fotos.

 

"Optei por um livro sem imagens porque sempre me causava desconforto chegar naquele momento do livro em que haveria fotos, poucas, num papel couché. Então usei o QR Code e com isso pude colocar muito mais fotos e até vídeos", conta ele.

 

Com fotos ou não, o que o público lê é um relato de uma banda que perseverou frente a muitas adversidades. Apenas porque apostou em si mesmo. Talvez esse tenha sido o grande trunfo do Biquini. Aliás, um dos. 

 

"O que não nos fez desistir foi o fato da gente ter público. O Biquíni era um campeão de execução, mas não de vendagem. E aí percebemos que havia outra coisa importante que eram as músicas. Isso sempre foi maior".

 
LANÇAMENTO: É IMPOSSÍVEL ESQUECER O QUE VIVI
DIA 26 de setembro, 19h
Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073) 


Quem escreveu
Andréia Martins

É jornalista, trabalhou com edição e reportagem nos portais Vírgula, Globo.com e UOL cobrindo música, política e internacional. Hoje segue na redação e também é editora do Roteiros Literários, sobre literatura e viagem, e do blog Quadrinhas, sobre quadrinhos feitos por e sobre mulheres.

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